Nós ainda estamos aqui – O Roller Derby e a Representatividade Negra

Mais uma vez é 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A data histórica representa o assassinato do líder Quilombola Zumbi dos Palmares, que junto com Dandara dos Palmares, lutou pela libertação dos negros no Brasil.

No entanto, anos de repressão deixaram marcas visíveis até hoje em nossa sociedade. Negros, ainda que supostamente nas mesmas condições, encontram um nível elevado de obstáculos em relação a não-negros para chegar a qualquer lugar, seja ele um cargo ou posto social. A consciência real, o empoderamento e a revolta de cada dia são recém-nascidos (ou recém-acordados) na sociedade brasileira.

E é aí que entra o Roller Derby. A diversidade que envolve o esporte atrai pessoas de todos os gêneros, formas e ideais, aceitando-as como são e acolhendo-as como parte da família. Mas onde está a comunidade negra? Atualmente somos três. Mas por que não cinco, dez, doze?

Muitas vezes, não só no Brasil, é possível contar nos dedos quantos integrantes negros há em uma liga. Nós, na Wheels, somos três – a título de comparação, o Roster do time All-Star das Gotham Girls Roller Derby (que fez o aquecimento para a final do Campeonato da WFTDA usando a camiseta “Black Lives Matter”) conta com uma pessoa negra – Bonita Apple Bomb.

Além disso, o fato de o esporte ser inclusivo e repleto de pessoas compreensivas e dispostas a ouvir ideias e explicações alheias sobre temas que não dominam não nos isenta de ter de desconstruir conceitos profundamente enraizados e dar certas explicações.

TJ “Scarbie Doll” Edwards, criadora da Black Roller Derby Network – que reúne o maior número possível de pessoas negras envolvidas com o esporte, sejam jogadores, árbitros, treinadores e apoiadores (incluindo gênios da track como Freight Train, Trouble MakeHer e o próprio Quadzilla) – sintetiza o tema:

– Se não há propaganda do esporte direcionada à comunidade negra, ela não será representada nele;

– Às vezes, há coisas que só outro skater negro é capaz de entender.

Uma breve análise de adesivos, artes, vídeos, filmes e demais representações de Derby na mídia dá a entender que, de fato, não há, ou há pouquíssimos negros no esporte. De modo algum a culpa é da comunidade não-negra (o ponto é, inclusive, amplamente debatido pela  comunidade estrangeira. Até agora não se chegou a um entendimento comum do motivo pelo qual negr@s não entram ou não permanecem em ligas), mas quando “nós” não nos vemos, ficamos receosos de fazer parte de qualquer coisa, desde comprar um produto a tentar despontar em um esporte. Vejam bem, é difícil fazer história.

Foi desse modo que, após anos de história pelos quais ainda somos afetadas, surgiu esse pequeno manifesto. Dentro desse esporte maravilhoso que empodera e representa, desejamos ser agentes de empoderamento e representação daqueles que, por algum motivo, se sentem receosos de entrar em uma liga. Desejamos representar e sermos representadas por pessoas com o mesmo tipo de cabelo e cor da pele que nós.

A comunidade negra do Roller Derby existe, e ela não vai parar de rolar.

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Foto tirada no 4º Brasileirão de Roller Derby, em 2015, com integrantes de algumas ligas do Brasil. Hoje já é possível afirmar que há mais negras compondo os times, mas o número ainda é pequeno se comparado com a comunidade dérbyca.

 

PS.: recentemente foi criado um novo espaço seguro para troca de experiências e dicas, abrangendo toda a comunidade POC (“People of Color”) do Derby, representado pela página Shades of Skate!

Kira #93

Tornando-se uma Wheels

Eu nunca esquecerei quando eu vi pela primeira vez o filme Garota Fantástica e pensei “Cara se tivesse esse esporte aqui eu faria muito certo, eu sei andar de roller e quero muito isso!”. Acredito que isso foi em 2011.

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Então, em 2013, passando pelo prédio em que moro hoje me deparei com um lambe-lambe… Era o desenho de uma mina bem brabona de capacete. Dizia “Recrutamento das Wheels of Fire” e mencionava o tal de Roller Derby. Bateu uma emoção forte. Será que se tratava do mesmo esporte do filme? Será que as deusas escutaram as minhas preces?! Sim! Na realidade o esporte era diferente daquele mostrado no filme, era mais agressivo, contudo era praticado com patins e as minas desse rolê eram mó casca dura que nem as do filme, então pensei “Meu… é nesse lance que eu tenho que me meter”. Só em 2015 fui no recrutamento, pois antes tinha vários os compromissos e eu não queria acabar me apegando a algo de que não poderia fazer parte. Porém em 2015 também não pude entrar pro clube por não ter como investir em equipamentos. Mas em 2016 fui a um treino determinada a fazer parte da equipe sem medir esforços.

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Em Julho desse ano assinei o meu termo de compromisso, comprei meus equipamentos, passei a ir nos treinos, a buscar mais informações sobre o Roller Derby, as regras e o funcionamento do jogo. Parecia que ia ser difícil, mas não. A gente vai se apaixonando pelo Derby e isso torna o processo algo prazeroso, ainda mais com o apoio de todos que fazem parte das Wheels que estão sempre dispostos a explicar todas as dúvidas que tive e continuo tendo.

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16/10/2016 – Pós-Brasileirão. O primeiro jogo da minha vida. Apesar de ainda desequilibrar, de não saber todas as skills, de ter medo dos hits e de ter tido um certo arrependimento de ter me inscrito para o jogo sem contato, eu fui. Por dois motivos: me superar e para mostrar para as minhas colegas Wheels que eu não desistiria mesmo que eu fizesse tudo errado. Eu só queria mostrar pra elas que eu não vou fugir, que eu vou continuar tentando mesmo não tendo tanto tempo para treinar e melhorar meus conhecimentos. Eu vou continuar tentando, porque me apaixonei portudo que envolve o Roller Derby, inclusive coisas que vão além do jogo, como o fortalecimento do corpo e da mente, o companheirismo e o amor que envolve essa galera que mantém esse esporte de forma autônoma com tanta dedicação.

Isso para mim é ir contra o sistema.

Isso para mim é lindo demais.

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

JuJu #333

Entendendo as chaves de competição do International WFTDA Championship

Quem é mais experiente no roller derby (e quem quer conhecê-lo melhor) provavelmente já acessou o canal da WFTDA no youtube onde são disponibilizados todos os jogos sancionados pela entidade organizadora oficial do roller derby. Nele você acessa na íntegra os jogos da competição internacional entre-ligas oficial, o International WFTDA Championship. Porém, entender a organização do maior campeonato do esporte, com 60 times distribuídos em duas divisões, e quatro rodadas antes da competição final com os 12 melhores times, não é tão simples. Por isso, apresento aqui uma explicação simplificada da organização do campeonato:

Primeiramente, deve-se conhecer o ranking das ligas-membro da WFTDA. Trata-se de uma classificação feita pelo menos a cada bimestre, que classifica as ligas de forma que a 1ª colocada seja considerada a melhor liga de acordo com os critérios pré-definidos da WFTDA. Esses critérios levam em conta a quantidade de jogos ganhos nos últimos 12 meses, a diferença de pontos por jogo em relação ao adversário, bem como o quão desafiadores são os times contra os quais este jogou. Explicar o ranking daria um texto por si só, quem quiser conhecer o algoritmo de classificação pode acessar esse link. Mas basta saber que a classificação final em Junho serve de base para o campeonato, sendo que os 40 primeiros colocados são elegíveis para a 1ª divisão da competição, e os classificados de 41 a 60 jogam na 2ª divisão da competição.

Os 40 times da 1ª divisão são, então, distribuídos em 4 grupos para os playoffs (algo como “jogos antes da competição”) e em subgrupos chamados seeds (na tradução literal, “sementes”) da seguinte forma, levando em conta sua posição no ranking:

Vemos, por exemplo, que a primeira seed é composta dos primeiros 4 times do ranking, e o primeiro playoff é composto do 1º, 8º, 9º, 16º, 17º, 24º, 25º, 32º, 33º, e 40º colocados do ranking.

A distribuição dos times segue um modelo chamado S-curve Seeding (na tradução literal, “curva S de semeadura”) com a intenção de que, dentro dos playoffs haja uma distribuição homogênea e igualmente espaçada de times mais ou menos difíceis de se jogar contra, e que dentro das seeds hajam times igualmente desafiadores.

A partir dessa distribuição, ocorrem os jogos de cada um dos playoffs, como mini-campeonatos antes do campeonato final, cada um em uma data e local diferente, com 10 times competindo. De acordo com a seed em que o time está, ele é distribuído nas chaves de competição:

A imagem acima reflete a competição que ocorrerá em cada um dos quatro playoffs, já que cada um deles tem um time de cada seed.

Os times das seeds 7, 8, 9 e 10 estão mais baixo no ranking que os demais, e a estrutura da competição garante que eles joguem entre si antes de competir com os times melhor rankeados. Essa estrutura é comum a diversos esportes, garantindo que dois times supostamente melhores (de acordo com o ranking) não se enfrentem tão cedo na competição, eliminando um ao outro, o que daria chance para um time supostamente pior (de acordo com o ranking) terminar a competição numa posição melhor que estes. Assim, não há sorteio nas chaves da competição.

Também pela estrutura da competição, nem todos os times se enfrentam (o que seria bastante exaustivo, com 10 times) e cada time joga 3 ou 4 jogos.

A competição segue o esquema “mata-mata”, em que um time precisa ganhar todos os seus jogos para ser o vencedor, na primeira chave de jogos chamada de Elimination Bracket (“chave de eliminação”). Os times que perdem passam para a Consolation Bracket (“chave de consolação”) em que competem os jogos de 5º lugar para baixo dentro da competição. Na imagem podemos ver claramente como a classificação final da competição acontece.

Os times que ficam em 1º, 2º ou 3º lugar em seus respectivos playoffs (12 times ao total) competem no International WFTDA Championship propriamente dito. De acordo com sua posição nos playoffs (e não importando mais sua posição no ranking da WFTDA) os times são distribuídos nas chaves da competição. Segue exemplo do Championship 2015, em que a posição do time no playoff estão indicadas ao lado de seu logo, e os playoffs são diferenciados de acordo com as cores azul, amarela, rosa e verde.

No exemplo acima, Gotham Girls Roller Derby, Angel City Derby Girls e Minnesota RollerGirls foram respectivamente 1º, 2º e 3º lugar no playoff que competiram. As chaves garantem que os times joguem com times de diferentes playoffs ao menos até as semifinais. Também como nos playoffs, nem todos os times jogam entre si, e o esquema de competição é do tipo “mata-mata”.

Por outro lado, não há jogos em uma “chave de eliminação”, dessa forma apenas quatro times saem classificados como 1º, 2º, 3º e 4º lugar da competição, e os times que perdem seu primeiro ou seu segundo jogo estão eliminados da competição e não jogam mais. Assim, os times podem jogar 1, 2, 3 ou 4 jogos ao total, de acordo com seu desempenho.

Os jogos dos playoffs e do campeonato (entre outros) servirão de base para o ranking da WFTDA, que serão usados na competição do ano seguinte.

Para acompanhar notícias sobre o International WFTDA Championship, acesse o site da WFTDA e acompanhe jogos ao vivo na wftda.tv.

Carol Contravenção #10

Recrutamento das Wheels!

por Juju

No último domingo de agosto [28/08], a WoF teve mais um recrutamento cheio de novidades! Para quem que, como eu, já tinha ido nos recrutamentos anteriores e teve a oportunidade de conhecer as meninas do Derby e cair altos tombos de patins testar suas habilidade de patins, saiba que nesse recrutamento teve muito mais que isso! Fomos da história do Roller Derby ao jogo de contato sem patins entre as participantes.

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Apesar do dia ter sido nublado, nossos corações estavam radiantes com a vontade, a curiosidade e a dedicação das nossas possíveis recrutas! Todas estavam atentas à pequena aula introdutória ao Roller Derby e não se constrangiam em tirar suas dúvidas e dificuldades no entendimento do jogo. Aliás, dúvidas são as que mais surgem quando descobrimos esse esporte, pois, uma coisa é certa, ao vê-lo pela primeira vez, sem alguém para explicar, a visão que temos é que aquilo não passa de uma pancadaria sobre rodinhas. Só que não! É um esporte com várias regras importantíssimas que visam à integridade das jogadoras e à dinâmica do jogo. As principais regras puderam ser observadas por nossas curiosas participantes através das orientações de nossos Oficiais: Gabriel e Luiz.

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Quando eu participei do meu primeiro recrutamento WoF a minha maior expectativa era andar de patins. Certamente não deve ter sido diferente nesse domingo. Por outro lado, para nós, WoF, o momento mais divertido definitivamente foi o Tênis Derby. Isso mesmo! Ao invés de patins, as meninas se equiparam e foram de tênis pra track aprender como é o jogo na prática. Teve risada, tombo, articulações e estratégias que partiram das próprias iniciantes que se envolveram e dominaram o jogo de maneira tão natural que nem parecia que aquela era primeira vez que estavam entrando em contato com o esporte.

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O recrutamento terminou com aquele passeio gostoso sobre rodinhas seguido de mais alguns tombos, tremedeiras, risadas, desequilíbrios, frio na barriga e “opa! Quase que eu caio!”.

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Por fim, gostaríamos de agradecer a presença de todos e deixamos o convite para a visita aos treinos abertos que acontecem aos sábados a partir das 18hs.

Juju.

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Roller Derby, Do It Yourself e Vida Profissional :D

Já se foram quase quatorze meses desde que eu conheci as wheels e comecei a treinar. E já se foram seis meses desde que eu comecei a atuar no comitê de treinamento, primeiro planejando e passando treinos de habilidades mínimas, e hoje planejando e passando treinos de habilidades avançadas, estratégia e jogo também. Era uma coisa que eu queria muito, que chegasse o final de 2015 e eu pudesse me candidatar para participar de algum comitê e ajudar a equipe, e ao mesmo tempo me dava medo, pois se eu estava treinando há apenas oito meses, como eu iria ensinar e passar exercícios para meninas que estavam ali há muito mais tempo que eu?

Confesso que nos primeiros treinos eu me senti insegura e com vergonha de fazer alguma coisa errada, mas logo fui percebendo a importância de estar ali, como as jogadoras depositavam expectativas no que eu estava passando para elas, e conseguindo também analisar as situações de treino, jogos e de jogos externos, a fim de contribuir cada vez mais para o crescimento do time! Consequentemente eu comecei a querer que a política do “do it yourself” (faça você mesmo), que é muito presente no roller derby, fizesse parte da minha vida pessoal e profissional também. E foi a imensa bagagem que eu já carrego em apenas quatorze meses de derby que me incentivou e me fez acreditar que era possível.

Identifiquei uma infinidade de semelhanças nas posições de jammer e blocker com meu trabalho como designer, que é um processo de solucionar problemas composto por várias etapas – briefing, pesquisa, conceituação, desenho, ajustes, finalização. O roller derby é um esporte que trabalha técnicas e estratégias, bem como o processo de design, e em cada drill, treino, jogo jogado, jogo assistido, conversa sobre derby, eu passo por esse mesmo processo: de identificar um problema, pesquisar e pensar como resolver, e dar tudo de mim enquanto trabalho nessa solução!

O “faça você mesmo” e o “vai lá e faz”, que regem o trabalho em uma equipe de roller derby, tomaram conta de mim e eu percebi com tudo isso que eu posso, sim, trabalhar e chegar aonde eu quiser, basta eu enxergar o meu lugar hoje, e o lugar que eu quero estar amanhã. Ainda faz pouco tempo que eu tomei a decisão de não trabalhar mais em uma agência de propaganda ou em um escritório de design, mas foi tempo suficiente pra tirar a bunda da cadeira em outros âmbitos da minha vida, e ver as coisas acontecerem do mesmo jeito que elas vêm acontecendo pra mim no esporte. ❤

Miss Mulder 00 | designer e artesã

Ladies of Helltown vs Wheels of Fire: Scrimmage Report

por Mazzo Oakenwhistle #87

Introdução

 

Ao final do mês de abril (1), representantes das Ladies of Helltown desceram à Porto Alegre para um jogo não oficial contra as Wheels of Fire. Ambas as ligas possuíam jogadoras novatas e veteranas buscando uma troca mútua de experiências e conhecimentos.

Foram acordadas entre as capitãs e o head referee algumas alterações nas condições padrões do jogo, visto que ambos os times tinham escalações com poucas jogadoras para revezamento. O número de faltas para desqualificação foi elevado de sete para dez e foi adicionado um intervalo para descanso de cinco minutos na metade de cada período.

Os dados aqui contidos foram analisados (2) e são oriundos dos registros dos NSOs, sendo eles dois penalty trackers, dois scorekeepers, um scoreboard operator, um jam timer e dois penalty timers, que deram o máximo de si para documentar este scrimmage e ajudar em sua realização. Também se esclarece que havia um número reduzido de árbitros, possivelmente ocasionando a não marcação de algumas penalidades. Esta análise é voltada para ajudar a equipe Wheels of Fire em seus treinamentos.

 

Primeiro período

 

O primeiro período pode ser seccionado em sete partes, de acordo com os acontecimentos do jogo. Três destas são power jams, sendo as outras quatro caracterizadas por um jogo equilibrado e cauteloso, com ambos os times visando o estudo das estratégias adversárias.

 

  1. As primeiras cinco jams estavam equilibradas. As Wheels conseguiram a liderança duas vezes e foi somente na segunda jam que sua jammer não conseguiu passagem. As Ladies conquistaram a liderança três vezes e sua jammer ficou, em duas jams, presa no bloqueio adversário.
  2. Na sexta jam, a penalização de duas bloqueadoras e o não ingresso da jammer das Wheels ocasionaram uma power jam em favor das Ladies. Somente nesta jam houve um salto de quinze pontos para as Ladies.
  3. Entre a sétima e a nona jam as Wheels conseguiram duas vezes a liderança, evitando a passagem da jammer adversária em ambas.
  4. Durante a décima jam, a jammer das Wheels foi penalizada, incindindo, assim, em outra power jam em favor das Ladies. Aqui houve um salto de doze pontos.
  5. Nas jams onze e doze houve um equilíbrio novamente, com uma liderança para cada e cinco pontos para ambas.
  6. Durante a décima terceira jam, uma bloqueadora e a jammer das Wheels foram penalizadas, resultando em uma power jam para as Ladies. Quando a jammer das Wheels retornou, realizou um star pass, forçando assim o fim da jam e evitando a adversária de marcar mais pontos.
  7. As últimas cinco jams voltaram a caracterizar um jogo mais equilibrado.

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Conclui-se, então, que no primeiro período o desempenho de ambos os times foi equilibrado. Apesar das Ladies terem obtido mais lideranças, as Wheels conseguiram realizar a passagem inicial em quase todas as jams, com exceção de duas. Uma possível explicação para a diferença no placar está na ocorrência de três power jams em favor das Ladies (3).

As faltas das Wheels, que totalizaram dez no primeiro período, foram em sua maioria relacionadas a Cutting the Track e Direction of Gameplay, sendo que duas power jams foram causadas por estas.

Um High Block, um Back Block, um Skate Out of Bounds e um Pack Destruction completam a lista das dez faltas realizadas no primeiro período.

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Observa-se que as Wheels possuem uma boa visão de pack. Também não efetuaram, em momento algum, multiplayer blocks. Em contraponto, houve dificuldades para identificar o momento correto de retornar para a track e manter a direção do jogo no sentido anti-horário.

As Ladies cometeram duas faltas a menos que as Wheels. Possivelmente devido ao menor desgaste físico e maior número de jogadoras em seu roster, estas faltas estão melhor distribuídas entre a equipe (4). Nota-se a dificuldade de algumas jogadoras com o pack e de outras em manter a direção do jogo em sentido anti-horário. Nas Ladies, houve penalizações por multiplayer block.

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Conclui-se então que neste período houve uma tendência ao cometimento de faltas relacionadas a Direction of Gameplay para ambas as equipes. Enquanto as Wheels não tiveram problemas relacionados ao pack, as Ladies não realizaram nenhuma falta de Cutting the Track. Multiplayer blocks foram realizados apenas por uma jogadora das Ladies, não caracterizando assim uma tendência de seu bloqueio.

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Em termos de estratégia, nota-se que três jogadoras das Ladies focaram na posição de jammer. Uma jogava algumas jams em sequência e depois descansava enquanto era substituída pelas outras. Para evitar o desgaste de suas jammers, haviam “coringas” para tentar cansar o bloqueio adversário e assim tentar facilitar a passagem de suas jammers nas jams seguintes.

As Wheels alternaram diversas jogadoras na posição de jammer e nenhuma foi escalada para esta posição mais que uma jam seguida. A utilização de “coringas” foi menos evidente e visando o descanso das demais.

Nota-se também que as Wheels, apesar de não terem realizado a passagem inicial em somente duas jams, não conseguiram durante o primeiro período realizar mais do que uma passagem de pontuação pelo bloqueio adversário.

Infelizmente, careço de dados para uma análise mais específica sobre a formação dos bloqueios e as estratégias aplicadas nestes.

 

Segundo período

 

O segundo período teve uma característica pendular. Apesar das Wheels conquistarem quase o dobro das leads se comparado às Ladies, apenas em duas jams realizaram mais de uma passagem de pontuação. Isto possivelmente está relacionado com o fato de que em duas jams a jammer das Ladies não conseguiu efetuar a passagem pelo bloqueio das Wheels. Nesta situação, as Wheels não veriam a necessidade de encerrar a jam para evitar a marcação de pontos das Ladies e, assim, conseguiriam realizar mais de uma passagem de pontuação (5). Não houve power jams neste período.

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Nas Ladies,a tendencia foi a de não jogar mais do que uma jam com a mesma jammer. Houve repetição em duas jams. A utilização de “coringas” foi realizada em somente uma jam e teve a função de ajudar no descanso de suas jammers.

A estratégia de jammers das Wheels mudou, deixando somente duas jogadoras com tal foco e utilizando-se de “coringas” para ajudar no descanso destas.

Um total de nove faltas foram cometidas pelas Ladies. Entretanto, seis delas foram cometidas pela mesma jogadora e em sua maioria por Direction of Gameplay. As outras faltas foram pontuais, sendo um Blocking with the Head, um Low Block e dois Cutting the Track.

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As Wheels, que apesar de fazerem duas faltas a menos que no primeiro período, foram penalizadas com faltas por Cutting the Track e Direction of Gameplay em sua maioria. Somando-se a estas faltas estão um Blocking with the Head e um Back Block.

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Conclusão

 

No geral, dadas as habilidades individuais de cada jogadora e a experiência dos times como conjuntos, o público pôde apreciar um jogo relativamente equilibrado em termos de competitividade, com um resultado satisfatório e emoção durante as jams mais acirradas.

Além do mais, é certo que os espectadores ficaram animados com a partida, o que se espera que abra a sua curiosidade em relação ao esporte e, talvez, promova sua inclusão na comunidade do roller derby.

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1 30/04/2016
2 Análise individual. Qualquer opinião aqui expressada é somente minha. –Gabriel
Especulação. Caso aplicável é somente um dentre diversos possíveis fatores.
4 Especulação.
Especulação.

Ameaça em dobro

Original: “Double Threat” por Kamikaze Kitten.

Tradução: Marcy The Wicked #121

 

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“Alguns dias eu tenho ‘dias de bloqueadora’, e outros dias eu tenho ‘dias de jammer’, mas raramente eu jogo uma partida em que sou boa nas duas posições.”

Alguma vez você já disse isso? Eu já disse isso bastante no passado. Este ano eu decidi voltar o olhar mais atentamente sobre essa questão de ser uma “ameaça dupla” (essas pessoas geniais que conseguem tanto jammar quanto bloquear). Por que nós temos dias em que somos melhores numa posição do que na outra? Qual é a diferença? Por que algumas jogadoras facilmente alternam entre as duas posições e outras acham essa tarefa quase impossível?

Bloquear e jammar podem exigir habilidades bastante diferentes. Muitas jogadoras gostariam de ter um conjunto diferente de patins para jammar e para bloquear. No mundo imaginário da minha cabeça, todas nós teríamos uma equipe de pitstop para as trocas de rodas e amortecedores nos 30 segundos entre as jams. Se pensar nisso, os movimentos que as bloqueadoras fazem tendem a ser laterais e de resistência à força, enquanto a função primária da jammer é se mover para frente e aplicar força.

Entretanto, em última análise, eu sinto que o equipamento pode ser usado como uma desculpa ao porquê de nós estarmos tendo um dia de jammer ou um dia de bloqueadora, ao invés do verdadeiro motivo. Quando olhei para a psicologia dos dois papéis e, em particular, para algo chamado de Níveis de Animação (NA), eu cheguei muito mais perto de entender este problema.

O seu NA ótimo é quando você está dando o seu melhor. O ponto no espectro varia de 1 (dormindo) até 10 (MUITO, MUITO, MUITO, MUITO EMPOLGADA) em que você fica focada no jogo e consegue alcançar o seu melhor desempenho. Com muito mais frequência, o NA que você precisa para bloquear e o NA para jammar são diferentes. É aqui que você vai encontrar a raiz dos seus problemas em se tornar uma ameaça dupla.

Vamos ver alguns exemplos pra nos ajudar a ter uma ideia melhor.

A jogadora 1 bloqueia melhor em um NA alto. Ela gosta de estar num nível 8 para bloquear porque é o único estado em que ela consegue encontrar força e agressão suficientes para fazer as coisas acontecerem na track. Quando ela está em um NA baixo, ela tem dificuldade em mover as pessoas ao seu redor, e demora a reagir às diferentes estratégias sendo implementadas pelo seu time. Quando ela jamma, entretanto, ela precisa buscar ser mais cautelosa senão ela entra em pânico. Então, jammar num NA de 8, a faz ser enviada para o banco de faltas por cortar a pista. Ela precisa estar num NA em torno de 6, para que possa processar melhor suas decisões e permitir que o seu time trabalhe por ela. Se ela estiver numa rotação entre bloquear/jammar e mantiver um NA constante de 8, ela se tornará um risco como jammer, enquanto um NA de 6 a deixará ineficaz como bloqueadora. O primeiro passo para a jogadora 1 é desenvolver a habilidade dela de estimar o seu NA a qualquer momento, para que ela possa dar o retorno dessa informação a suas companheiras de time e treinador(a). O segundo passo é aprender a ajustar esse NA entre as jams – se empolgando um pouco mais para bloquear e se acalmando para as jams.

A jogadora 2 é o oposto. Ela gosta de estar em um nível 9 para jammar, uma vez que é único nível em que ela consegue ativar suas fibras musculares de contração rápida e ter o senso de urgência para passar pelo pack primeiro. Quando está bloqueando, por outro lado, um NA alto faz com que ela se afaste das suas companheiras de time e se dedique exageradamente a dar hits. Ela acaba se dispersando pela pista (e acaba bastante no banco de faltas). Ela trabalha melhor num nível 7 como bloqueadora. No entanto, para o seu time, ela é muito mais útil como jammer e, portanto, é mais importante que ela esteja num alto NA do que completamente controlada como bloqueadora. Ela pode usar as mesmas técnicas que a jogadora 1 (só que trocadas) OU ela pode se focar em manter seu NA alto durante todo o jogo, mas ter uma Âncora dentro do pack. Alguém que consiga se comunicar com ela durante a jam no seu estado de NA alto e a quem ela vai ouvir e responder.

Então, quando me dei conta dessas diferenças no meu NA ótimo para jammar e bloquear, surgiu uma maneira completamente nova de manter minha performance sob controle durante jogos. Parou de parecer que era algo aleatório e passou a ser possível desenvolver estratégias para lidar com isso.

Essas estratégias serão diferentes de pessoa pra pessoa, mas um bom ponto de partida é com a respiração, o diálogo interno e a visualização. Eu descobri que aumentar o ritmo da minha respiração é uma maneira fácil de aumentar o meu NA, e diminuir consegue me acalmar. Mesma coisa quanto ao diálogo interno – pisar na pista como bloqueadora com as palavras “controle e calma” tem o efeito de manter meu NA baixo, mas “agressão e PORRADA” aumentam ele de novo. Finalmente, para aqueles momentos entre as jams, ter uma pequena visualização pode ajudar bastante. E se todo o resto falhar, eu noto que uns tapinhas no rosto pra acordar funcionam maravilhosamente bem pra me animar de novo. A melhor coisa a fazer é experimentar no treino com níveis diferentes, e falar com suas companheiras de time se você não tem certeza de estar fazendo o seu melhor.

Claro, essas coisas não funcionam apenas com ameças duplas. Pode ser igualmente útil se vocês está tendo dificuldades em performar consistentemente durante os treinos, quando, qualquer NA que você consiga atingir seja o que você normalmente mantém durante todas as drills.

Você nunca pode pedir mais do que ser capaz de jogar o seu melhor com confiança, não importa o nível que isso seja. Quanto menor isso depender de circunstâncias externas, maior confiança você terá em você mesma, e mais efetiva você será na track.

Agora, onde está essa equipe de pitstop…