2014, o ano do Roller Derby no Brasil?

Desde o início, 2014 já dava indícios de que seria um grande ano para o Roller Derby brasileiro. Enxerguei praticamente todas as ligas ativas finalmente tendo uma dimensão real da cena brasileira e do que fazer nela. A meu ver, o 2º Brasilierão, em São Paulo, foi o estopim. Hoje eu diria que essa perspectiva de causa e efeito se concretizou, e vale muito refletir sobre ela.

Certamente há quem conteste esse ponto de vista, principalmente se considerarmos os grupos e pessoas que não ficaram tão satisfeitos com o evento ou que até mesmo não participaram. Ainda assim, acho que o evento atingiu tudo, mesmo que indiretamente. Do segundo brasileirão não saiu só contentamento e integração, mas também motivação e embasamento para fazer mais ou até mesmo diferente.

Entendo que a ideia de 2014 ter sido um ótimo ano possa soar controversa, principalmente quando lembro que não foi exatamente um ano de evolução e prosperidade para todo mundo. Algumas ligas ficaram estagnadas, outras diminuíram, e muitas acabaram. Pessoas também se afastaram, como é de se esperar. Quando isso é o que foi mais evidente para alguns, nada mais lógico do que acharem hipócrita ou irreal a imagem que estou compartilhando.

Em minha defesa, o que me permite concluir que foi um ótimo ano é minha participação como árbitro. A partir do momento em que me assumo como Ref, não só tenho a possibilidade de enxergar ligas e pessoas por um espectro mais amplo, distante, mas também tenho isso como uma obrigação, o que me dá um ponto de vista privilegiado para pensar nas conquistas e problemas do nosso esporte. Daí, veio a vontade de discutir abertamente o que penso.

Uma complicação de falar sobre isso é soar pretensioso e arrogante, já que talvez não tenha tanta novidade no meu discurso. Outro problema é a rispidez do texto que segue, que tentarei atenuar mas não eliminar. Às vezes é necessário. Aproveito então para lembrar que essas são apenas minhas impressões, sem nenhuma intenção de combater as realizações, iniciativas e aspirações de ninguém, tampouco direcionar críticas para pessoas ou grupos específicos. Inclusive, posso estar completamente enganado sobre algumas coisas, e ao tentar provocar uma reflexão com aplicação real acabar ferindo sentimentos alheios. Espero que não, mas prefiro correr esse risco.

O ponto principal é a importância dos avanços que surgem apenas da interação em eventos. Isso é bastante óbvio, tanto que a quantidade de eventos abertos e com propósitos diversos aumentou absurdamente, e alguns anúncios e rumores recentes já indicam que esse ritmo vai seguir. O que talvez não se observe com tanta facilidade é que se essas oportunidades continuarem surgindo de maneira muito espontânea, sem entrosamento, teremos oferta, mas não demanda. Se isso acontecer, teremos muitos eventos, mas todos com pouca procura, o que vai acabar afetando o retorno para todos os envolvidos, e, por fim, desestimular grandes iniciativas do RD em geral. Isso já aconteceu em 2014, mas 2015 pode ser diferente.

Para evitar isso, eventos que dependem do mesmo público ou com finalidade similar acontecendo em intervalos muito próximos deveriam ser repensados com cuidado. Essa seria uma questão mais fácil de resolver se dependesse só de cada organizador avaliar o que já foi anunciado e programar de acordo, mas o problema é que enquanto uma parte está só acertando detalhes, tem outra fazendo a mesma coisa, e não raro as duas escolhem datas que se excluem. Para quem tem experiência no underground da música, vale uma comparação – é exatamente como quando marcam dois shows locais, de um mesmo estilo, em um mesmo final de semana. A diferença é que produtores de shows muitas vezes não podem se comunicar, nem se quisessem, mas atualmente no Roller Derby do Brasil isso é possível, basta querer.

Por que isso não acontece, então? Boa parte das preparações são conduzidas com um sigilo totalmente desnecessário e improdutivo. Consigo entender a motivação, mas não aprovo, pelo menos por enquanto. É com boas intenções que se opta por não divulgar informações preliminares e não confirmadas, como evitar gerar expectativas que podem não ser realizadas e proteger a própria credibilidade. Só que a prática já mostrou que isso não funciona, essa linha de raciocínio ainda não se aplica ao nosso estágio atual, que é de formação de uma unidade nacional. É preciso assumir que estamos nesse estágio, e não só esperar a colaboração e opinião dos interessados, mas ir atrás disso. É vital ser transparente e se expor para ter uma visão das necessidades reais de quem vai participar, que, por sinal, também tem responsabilidades e deveres na expansão da cena nacional.

A mentalidade geral de quem consome jogos, bootcamps e afins precisa deixar de ser parasitária e egocêntrica de uma vez por todas, pelo bem do próprio esporte. Ao invés de se pensar só no melhor custo-benefício por habilidades de patinação, começar a pensar na integração como o maior e melhor dos benefícios, com a consciência de que muitas vezes isso vai exigir agregar, e não só absorver. A boa notícia é que agregar sempre é produtivo de alguma forma. E se ainda resta dúvida que a participação em si é o que conta, procure a pessoa mais próxima que teve de ir a um evento lesionada, pergunte se valeu a pena. Me avise se escutar um “não” como resposta, pois eu nunca ouvi.

Enquanto termino de escrever esse texto, nossas amigas e heroínas da seleção brasileira estão realizando um sonho no mundial em Dallas. Uma grande realização que tomou grande forma nos eventos de 2014. Quem esteve em algum deles, ajudou nisso de alguma forma. Agora, pense que existem outros sonhos, mais simples e próximos, que com um pouco de envolvimento e dedicação podem se concretizar até o final de 2015. Na minha conta, temos três eventos abertos e grandes programados (Twisted and Mixed, Brasileirão e Batalha da Ponte Aérea) e provavelmente vem mais por aí. Vamos nos organizar.

por Luiz Prado (80beats)

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