Diário de uma fresh: Aprender a patinar é aprender a andar de novo

Acabei de voltar do meu primeiro treino de Roller Derby. Uau.

Acho que muito provavelmente não vou sentir os efeitos físicos até amanhã, mas já consigo, entre o meu cheiro de chulé e a umidade do meu suor, sentir um pouco dos efeitos emocionais.

Patinar é muito difícil. Tipo, muito difícil. Tipo, difícil para caralho.

Tive que assistir dois treinos antes de colocar os patins no pé, então fui dada a chance de observar as Wheels de perto. Algumas coisas em especial chamaram a minha atenção: primeiramente, que todas as meninas (e o único menino do time) são demais. Eles são incríveis no que fazem. Simplesmente incríveis. O que mais me surpreendeu é que, na quadra, ninguém parecia estar pensando sobre o que eles estavam fazendo, e tudo, cada detalhe, cada singelo movimento, cada impulso de energia, fluía naturalmente. Nunca tinha visto ninguém se mover tão rápido, tão gentilmente. Me deu muita segurança saber que a maioria patina a mais ou menos um ano, e que elas também caem! Se em um ano eu patinar a metade que elas patinam hoje, vou ser uma fresh muito feliz. A treinadora, Chu, então, nem se fala. Ela patina a mais tempo, e joga no Time Brasil. Eu não tinha nem ideia que isso existia!

Comparando com o ”Whip It”, minha única referência de Roller Derby, uma coisa sim é verdade: elas são garçonetes, professoras, e estudantes durante o dia, mas pela noite… são outras pessoas. É só elas pisarem na quadra que se percebe, mesmo de longe, que ocorre uma transformação tremenda, que quem está na quadra é quem elas realmente são, ou até, às vezes, quem elas querem ser. Cada movimento vem imerso em um mar de honestidade, de esforço e de dedicação – que é extremamente admirável.

Eu também fiquei impressionada com o sentimento de equipe que ressona das Wheels. Todas participam, programam, planejam e gastam seu tempo por um amor puro e enorme pelo esporte. Nada mais. As tarefas do time, por exemplo, quem toma conta do blog, do design gráfico, dos treinos, são todas divididas entre elas, por votação, e elas tentam ao máximo manter uma organização horizontal, sem envolver grana ou autoridade. Já notei que não é um sistema sempre perfeito, mas elas estão chegando lá. Afinal, é errando que se acerta.

A segunda coisa que notei é que elas não são todas magras. Parece bobagem, mas eu tinha esse receio. Sempre pensei que praticar um esporte, a não ser os tiozões que jogam futebol nos domingos, tinha a ver com músculos definidos, barrigas tanquinho, Gatorade – no estilo do ”Whip It” mesmo. Não, não, não. Ser magra não tem nada a ver com ser boa no Derby. Nada. Roller Derby é realmente um esporte para todo mundo e todo ”tipo de corpo” é um corpo para Derby. Também descobri que ter coxas grossas significa que a pessoa treinou muito, ou seja: corre porque essa mina vai te esmagar!

Enfim, chegou a minha hora de mostrar o que eu sabia. Com os patins apertadinhos no pé, capacete, joelheira e todo tipo de proteção possível, entrei na quadra. Estava muito nervosa, tremia. Sabia que teria gente me assistindo e queria passar uma boa impressão. Por isso, tentei me preparar no dia anterior, mas, confesso, acabei ficando mais tempo no chão da quadra ao lado da minha casa, do que realmente patinando – um fracasso! Não posso mentir, na metade do treino, me senti um pouco mal, pensava que já sabia patinar. Acho que a Chu se deu conta disso, e me chamou para perto dela. Ela falou:

”Segura na minha cintura. Forte”.

”Hã?”, eu falei.

”É, forte. E não tira os patins do chão, kenga”.

Fui, sem entender muito o que ia acontecer. De carona na Chu, embarquei numa super viagem, rodando e rodando em volta da quadra. O mundo a minha volta parou. Tudo desapareceu. Nada importava a não ser que estávamos ali, naquele loop infinito, e que a minha adrenalina estava estourando dentro de mim. Eu adorei aquela velocidade, aquela sensação.

E foi aí que o extraordinário aconteceu: eu percebi que as veteranas não estavam desapontadas com a minha performance. Foi como se elas soubessem que o meu primeiro treino seria exatamente daquele jeito – o que foi incrível. Não me senti pressionada, e pude me concentrar no que estava fazendo. Um dia de cada vez. (ps. hoje já posso fazer crossover!)

Me dar conta disso, de que eu não sei patinar, foi algo muito importante para mim. Realmente, não sei patinar, AINDA! Quero abraçar esse sentimento de ser fresh, de estar rodeada de pessoas que sabem muito mais do que eu, de exercitar essa nova sensação que é estar sobre rodas, de ser outra pessoa. Para patinar, você não precisa somente de força muscular, de técnica: patinar é encontrar uma harmonia, que sim, existe dentro de você!, entre a sua mente e o seu corpo, de conectar os dois. É aprender a fazer algo tão naturalmente como andar, de olhos fechados, com o seu coração. E isso, realmente, não é fácil.

Agora, vou tomar um banho, e tentar dormir um pouco. Mal posso esperar para ir a outro treino!

Com amor,

Kit-Katniss

3 comentários sobre “Diário de uma fresh: Aprender a patinar é aprender a andar de novo

  1. Pingback: Roller Derby é deixar-se ser – uma analogia com Fight Club | Wheels of Fire Roller Derby Club

  2. Oi gente, vocês ainda estão ai?
    Incrivel o modo como achei esta pagina. Achei que tudo isso fosse coisa de filme, ou ao menos que não existisse no Brasil. Estava catando um roller pra comprar e achei este blog muito legal. Adorei. Também estou aprendendo a andar, quer dizer, andei quando criança então acho que vou começar do zero. Perdi meu noivo recentemente e estou tentando me encontrar em algum esporte e me dedicar a isto. Pensei no hóquei mas estou começando a mudar de idéia. Gostaria de conhecer vocês.
    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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