O bronze que vale ouro

Foto por Fernando Marinho

A NSO avisa “FIVE SECONDS!” Estou na jammer line e mentalmente conto: “5… 4… 3… 2… 1!” Soa o apito e eu saio correndo em direção a wall adversária, empurro, surfo, me desloco lateralmente, forço, forço, forço…(não dá para desistir, não é uma opção)… São muitos estímulos visuais e sonoros, são muitas coisas para prestar atenção… Eu continuo forçando e surfando até que eu consigo passar, fui a primeira! Consegui, sou lead!

Aí vem o silêncio, o imenso silêncio que toma conta de mim… Eu continuo correndo, e naqueles segundos só escuto o som da minha respiração e do vento, até que… A wall está ali de novo me esperando, barulhos, empurrões… Um novo obstáculo que eu preciso passar e não posso desistir. Passo, chamo, encerro e tudo começa de novo.

A vida no Derby é como uma jam de cada vez, pelo menos é assim que eu gosto de comparar… É sofrido, desgastante, barulhento e cansativo… Às vezes nós pegamos a lead, às vezes não, mas a única certeza que temos é: não podemos desistir nunca!

Paciência, determinação, automotivação e esperança são palavras que eu repito constantemente para mim mesma desde que eu entrei no time. Nesses três anos de equipe eu vi os altos e baixos, as jogadoras chegando no time e indo embora e sempre repeti para mim: “paciência, não desiste”. Inicialmente, foi difícil entender como funcionava uma equipe, éramos apenas um grupo de pessoas com o objetivo comum de jogar Roller Derby, mas era cada uma por si e o Universo por todas… Levou dois anos e meio para que as Wheels of Fire se tornassem uma equipe organizada e apta para competir. Enfrentamos muitas adversidades, períodos de hiato e treinos com apenas duas pessoas, mas não desistimos. Não dá para desistir de algo que nos faz tão bem… A promessa de jogar, às vezes, se tornava apenas um sonho ou uma fantasia e nesse meio tempo perdíamos jogadoras. Pouca gente ficou e até hoje não entendo o motivo, mas sei que existem coisas que não precisam ser explicadas. Crescemos e amadurecemos como atletas e como pessoas nesses três anos e aprendemos a lidar com os problemas e a sermos pessoas melhores, com amor e empatia, pois sem isso não há base que segure um time. Aprendemos a viver com as diferenças e hoje agradecemos por elas existirem, pois são as diferentes pessoas que fazem parte das Wheels que tornam essa equipe o que ela é hoje: forte, focada e unida. Também aprendemos que o que fizermos para o time deve ser livre de intenções de reconhecimento e de egos, não podemos esperar que as pessoas nos reconheçam, nos amem, nos adorem pelo fato de passarmos o treino, administrarmos a liga ou qualquer outra coisa que façamos no time. Devemos sempre lembrar que dedicamos tempo e dinheiro ao Derby porque amamos o esporte e não porque precisamos de reconhecimento. Aliás, se essa é a sua intenção, meu amigo, larga fora.

Eu não sei qual foi a sensação das minhas Wheels nesse campeonato, mas sei qual foi a minha: foi uma mistura de orgulho, amor, felicidade, orgulho (sim, de novo), ansiedade e sensação de dever cumprido. Vê-las jogando contra as Rebels (eu havia sido ejetada) organizadas e conectadas, reproduzindo o que tinham aprendido em treino, seguindo em frente quando conseguiam executar a jogada e quando não conseguiam também, atacando e defendendo… Foi lindo, me senti como uma mãe deve se sentir vendo os filhos fazendo algo de forma independente, enchi os olhos d’água e sorri de felicidade: “elas são incríveis, fazem tudo sozinhas e perfeitamente”, pensei. Fiquei feliz porque passei o ano inteiro dando broncas e tentando convencer cada uma delas do quão incríveis elas são e sempre escutava: “não sou, não sei fazer, não consigo”, mas eu sempre soube, então esperei pacientemente chegar o dia em que elas veriam com os próprios olhos o quanto elas são capazes. E esse dia chegou. Elas estavam nervosas, eu também, e quando foi necessário – na hora do aperto – elas encontraram dentro de si forças para fazer o melhor que podiam, e fizeram isso lindamente.

Nós perdemos para as Rebels, mas ganhamos algo melhor: caráter de jogo. Jogamos com um time experiente e isso nos ajudou a melhorarmos como jogadoras.

Sem tristeza nem sentimento de derrota comemoramos nosso primeiro jogo como um time comemora uma vitória!

No segundo jogo vislumbrei outro time, um time mais maduro e mais focado, um time mais tranquilo… O jogo foi ótimo, algo tinha mudado e foi para melhor, eu tive a chance de jogar com elas lado a lado, bloqueando e jammando, sabendo que éramos uma extensão uma da outra, que sabíamos o que fazer e quando. Ouso dizer que Wheels x Thunders foi o melhor jogo do campeonato, foi acirrado e teve tudo o que um jogo precisa: ação, emoção e jogo limpo.

Obrigado por isso, Thunders!

Eu não tenho palavras para descrever o que eu realmente sinto agora, só sei que ouvir as pessoas dizendo para mim “parabéns, suas jogadoras são incríveis!” e saber que hoje elas têm consciência do potencial de cada uma e do que são capazes é minha maior recompensa.

De uma forma lúdica, eu sinto que ganhar o MVP do campeonato foi a recompensa – tangível – de todo o empenho, paciência e lágrimas que eu dediquei a esse time, e elas hoje sabem que são capazes de coisas incríveis e muito maiores!

Voltamos para casa nos sentindo diferentes, crescemos e, novamente, evoluímos de um grupo de pessoas com apenas um objetivo em comum, para um time, de um time para uma equipe e de uma equipe para uma família.

E eu sempre terei orgulho de dizer que faço parte de algo tão bonito, nunca desistirei e sempre insistirei em dizer o quanto elas são incríveis e capazes (não importa quantas vezes eu escute elas dizendo o contrário!) e sempre vou chorar de felicidade, orgulho e amor por cada uma das minhas teammates, porque eu acredito e confio em cada uma delas.

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#9 Chu

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