Tornando-se uma Wheels

Eu nunca esquecerei quando eu vi pela primeira vez o filme Garota Fantástica e pensei “Cara se tivesse esse esporte aqui eu faria muito certo, eu sei andar de roller e quero muito isso!”. Acredito que isso foi em 2011.

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Então, em 2013, passando pelo prédio em que moro hoje me deparei com um lambe-lambe… Era o desenho de uma mina bem brabona de capacete. Dizia “Recrutamento das Wheels of Fire” e mencionava o tal de Roller Derby. Bateu uma emoção forte. Será que se tratava do mesmo esporte do filme? Será que as deusas escutaram as minhas preces?! Sim! Na realidade o esporte era diferente daquele mostrado no filme, era mais agressivo, contudo era praticado com patins e as minas desse rolê eram mó casca dura que nem as do filme, então pensei “Meu… é nesse lance que eu tenho que me meter”. Só em 2015 fui no recrutamento, pois antes tinha vários os compromissos e eu não queria acabar me apegando a algo de que não poderia fazer parte. Porém em 2015 também não pude entrar pro clube por não ter como investir em equipamentos. Mas em 2016 fui a um treino determinada a fazer parte da equipe sem medir esforços.

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Em Julho desse ano assinei o meu termo de compromisso, comprei meus equipamentos, passei a ir nos treinos, a buscar mais informações sobre o Roller Derby, as regras e o funcionamento do jogo. Parecia que ia ser difícil, mas não. A gente vai se apaixonando pelo Derby e isso torna o processo algo prazeroso, ainda mais com o apoio de todos que fazem parte das Wheels que estão sempre dispostos a explicar todas as dúvidas que tive e continuo tendo.

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16/10/2016 – Pós-Brasileirão. O primeiro jogo da minha vida. Apesar de ainda desequilibrar, de não saber todas as skills, de ter medo dos hits e de ter tido um certo arrependimento de ter me inscrito para o jogo sem contato, eu fui. Por dois motivos: me superar e para mostrar para as minhas colegas Wheels que eu não desistiria mesmo que eu fizesse tudo errado. Eu só queria mostrar pra elas que eu não vou fugir, que eu vou continuar tentando mesmo não tendo tanto tempo para treinar e melhorar meus conhecimentos. Eu vou continuar tentando, porque me apaixonei portudo que envolve o Roller Derby, inclusive coisas que vão além do jogo, como o fortalecimento do corpo e da mente, o companheirismo e o amor que envolve essa galera que mantém esse esporte de forma autônoma com tanta dedicação.

Isso para mim é ir contra o sistema.

Isso para mim é lindo demais.

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

JuJu #333

Entendendo as chaves de competição do International WFTDA Championship

Quem é mais experiente no roller derby (e quem quer conhecê-lo melhor) provavelmente já acessou o canal da WFTDA no youtube onde são disponibilizados todos os jogos sancionados pela entidade organizadora oficial do roller derby. Nele você acessa na íntegra os jogos da competição internacional entre-ligas oficial, o International WFTDA Championship. Porém, entender a organização do maior campeonato do esporte, com 60 times distribuídos em duas divisões, e quatro rodadas antes da competição final com os 12 melhores times, não é tão simples. Por isso, apresento aqui uma explicação simplificada da organização do campeonato:

Primeiramente, deve-se conhecer o ranking das ligas-membro da WFTDA. Trata-se de uma classificação feita pelo menos a cada bimestre, que classifica as ligas de forma que a 1ª colocada seja considerada a melhor liga de acordo com os critérios pré-definidos da WFTDA. Esses critérios levam em conta a quantidade de jogos ganhos nos últimos 12 meses, a diferença de pontos por jogo em relação ao adversário, bem como o quão desafiadores são os times contra os quais este jogou. Explicar o ranking daria um texto por si só, quem quiser conhecer o algoritmo de classificação pode acessar esse link. Mas basta saber que a classificação final em Junho serve de base para o campeonato, sendo que os 40 primeiros colocados são elegíveis para a 1ª divisão da competição, e os classificados de 41 a 60 jogam na 2ª divisão da competição.

Os 40 times da 1ª divisão são, então, distribuídos em 4 grupos para os playoffs (algo como “jogos antes da competição”) e em subgrupos chamados seeds (na tradução literal, “sementes”) da seguinte forma, levando em conta sua posição no ranking:

Vemos, por exemplo, que a primeira seed é composta dos primeiros 4 times do ranking, e o primeiro playoff é composto do 1º, 8º, 9º, 16º, 17º, 24º, 25º, 32º, 33º, e 40º colocados do ranking.

A distribuição dos times segue um modelo chamado S-curve Seeding (na tradução literal, “curva S de semeadura”) com a intenção de que, dentro dos playoffs haja uma distribuição homogênea e igualmente espaçada de times mais ou menos difíceis de se jogar contra, e que dentro das seeds hajam times igualmente desafiadores.

A partir dessa distribuição, ocorrem os jogos de cada um dos playoffs, como mini-campeonatos antes do campeonato final, cada um em uma data e local diferente, com 10 times competindo. De acordo com a seed em que o time está, ele é distribuído nas chaves de competição:

A imagem acima reflete a competição que ocorrerá em cada um dos quatro playoffs, já que cada um deles tem um time de cada seed.

Os times das seeds 7, 8, 9 e 10 estão mais baixo no ranking que os demais, e a estrutura da competição garante que eles joguem entre si antes de competir com os times melhor rankeados. Essa estrutura é comum a diversos esportes, garantindo que dois times supostamente melhores (de acordo com o ranking) não se enfrentem tão cedo na competição, eliminando um ao outro, o que daria chance para um time supostamente pior (de acordo com o ranking) terminar a competição numa posição melhor que estes. Assim, não há sorteio nas chaves da competição.

Também pela estrutura da competição, nem todos os times se enfrentam (o que seria bastante exaustivo, com 10 times) e cada time joga 3 ou 4 jogos.

A competição segue o esquema “mata-mata”, em que um time precisa ganhar todos os seus jogos para ser o vencedor, na primeira chave de jogos chamada de Elimination Bracket (“chave de eliminação”). Os times que perdem passam para a Consolation Bracket (“chave de consolação”) em que competem os jogos de 5º lugar para baixo dentro da competição. Na imagem podemos ver claramente como a classificação final da competição acontece.

Os times que ficam em 1º, 2º ou 3º lugar em seus respectivos playoffs (12 times ao total) competem no International WFTDA Championship propriamente dito. De acordo com sua posição nos playoffs (e não importando mais sua posição no ranking da WFTDA) os times são distribuídos nas chaves da competição. Segue exemplo do Championship 2015, em que a posição do time no playoff estão indicadas ao lado de seu logo, e os playoffs são diferenciados de acordo com as cores azul, amarela, rosa e verde.

No exemplo acima, Gotham Girls Roller Derby, Angel City Derby Girls e Minnesota RollerGirls foram respectivamente 1º, 2º e 3º lugar no playoff que competiram. As chaves garantem que os times joguem com times de diferentes playoffs ao menos até as semifinais. Também como nos playoffs, nem todos os times jogam entre si, e o esquema de competição é do tipo “mata-mata”.

Por outro lado, não há jogos em uma “chave de eliminação”, dessa forma apenas quatro times saem classificados como 1º, 2º, 3º e 4º lugar da competição, e os times que perdem seu primeiro ou seu segundo jogo estão eliminados da competição e não jogam mais. Assim, os times podem jogar 1, 2, 3 ou 4 jogos ao total, de acordo com seu desempenho.

Os jogos dos playoffs e do campeonato (entre outros) servirão de base para o ranking da WFTDA, que serão usados na competição do ano seguinte.

Para acompanhar notícias sobre o International WFTDA Championship, acesse o site da WFTDA e acompanhe jogos ao vivo na wftda.tv.

Carol Contravenção #10

O bronze que vale ouro

Foto por Fernando Marinho

A NSO avisa “FIVE SECONDS!” Estou na jammer line e mentalmente conto: “5… 4… 3… 2… 1!” Soa o apito e eu saio correndo em direção a wall adversária, empurro, surfo, me desloco lateralmente, forço, forço, forço…(não dá para desistir, não é uma opção)… São muitos estímulos visuais e sonoros, são muitas coisas para prestar atenção… Eu continuo forçando e surfando até que eu consigo passar, fui a primeira! Consegui, sou lead!

Aí vem o silêncio, o imenso silêncio que toma conta de mim… Eu continuo correndo, e naqueles segundos só escuto o som da minha respiração e do vento, até que… A wall está ali de novo me esperando, barulhos, empurrões… Um novo obstáculo que eu preciso passar e não posso desistir. Passo, chamo, encerro e tudo começa de novo.

A vida no Derby é como uma jam de cada vez, pelo menos é assim que eu gosto de comparar… É sofrido, desgastante, barulhento e cansativo… Às vezes nós pegamos a lead, às vezes não, mas a única certeza que temos é: não podemos desistir nunca!

Paciência, determinação, automotivação e esperança são palavras que eu repito constantemente para mim mesma desde que eu entrei no time. Nesses três anos de equipe eu vi os altos e baixos, as jogadoras chegando no time e indo embora e sempre repeti para mim: “paciência, não desiste”. Inicialmente, foi difícil entender como funcionava uma equipe, éramos apenas um grupo de pessoas com o objetivo comum de jogar Roller Derby, mas era cada uma por si e o Universo por todas… Levou dois anos e meio para que as Wheels of Fire se tornassem uma equipe organizada e apta para competir. Enfrentamos muitas adversidades, períodos de hiato e treinos com apenas duas pessoas, mas não desistimos. Não dá para desistir de algo que nos faz tão bem… A promessa de jogar, às vezes, se tornava apenas um sonho ou uma fantasia e nesse meio tempo perdíamos jogadoras. Pouca gente ficou e até hoje não entendo o motivo, mas sei que existem coisas que não precisam ser explicadas. Crescemos e amadurecemos como atletas e como pessoas nesses três anos e aprendemos a lidar com os problemas e a sermos pessoas melhores, com amor e empatia, pois sem isso não há base que segure um time. Aprendemos a viver com as diferenças e hoje agradecemos por elas existirem, pois são as diferentes pessoas que fazem parte das Wheels que tornam essa equipe o que ela é hoje: forte, focada e unida. Também aprendemos que o que fizermos para o time deve ser livre de intenções de reconhecimento e de egos, não podemos esperar que as pessoas nos reconheçam, nos amem, nos adorem pelo fato de passarmos o treino, administrarmos a liga ou qualquer outra coisa que façamos no time. Devemos sempre lembrar que dedicamos tempo e dinheiro ao Derby porque amamos o esporte e não porque precisamos de reconhecimento. Aliás, se essa é a sua intenção, meu amigo, larga fora.

Eu não sei qual foi a sensação das minhas Wheels nesse campeonato, mas sei qual foi a minha: foi uma mistura de orgulho, amor, felicidade, orgulho (sim, de novo), ansiedade e sensação de dever cumprido. Vê-las jogando contra as Rebels (eu havia sido ejetada) organizadas e conectadas, reproduzindo o que tinham aprendido em treino, seguindo em frente quando conseguiam executar a jogada e quando não conseguiam também, atacando e defendendo… Foi lindo, me senti como uma mãe deve se sentir vendo os filhos fazendo algo de forma independente, enchi os olhos d’água e sorri de felicidade: “elas são incríveis, fazem tudo sozinhas e perfeitamente”, pensei. Fiquei feliz porque passei o ano inteiro dando broncas e tentando convencer cada uma delas do quão incríveis elas são e sempre escutava: “não sou, não sei fazer, não consigo”, mas eu sempre soube, então esperei pacientemente chegar o dia em que elas veriam com os próprios olhos o quanto elas são capazes. E esse dia chegou. Elas estavam nervosas, eu também, e quando foi necessário – na hora do aperto – elas encontraram dentro de si forças para fazer o melhor que podiam, e fizeram isso lindamente.

Nós perdemos para as Rebels, mas ganhamos algo melhor: caráter de jogo. Jogamos com um time experiente e isso nos ajudou a melhorarmos como jogadoras.

Sem tristeza nem sentimento de derrota comemoramos nosso primeiro jogo como um time comemora uma vitória!

No segundo jogo vislumbrei outro time, um time mais maduro e mais focado, um time mais tranquilo… O jogo foi ótimo, algo tinha mudado e foi para melhor, eu tive a chance de jogar com elas lado a lado, bloqueando e jammando, sabendo que éramos uma extensão uma da outra, que sabíamos o que fazer e quando. Ouso dizer que Wheels x Thunders foi o melhor jogo do campeonato, foi acirrado e teve tudo o que um jogo precisa: ação, emoção e jogo limpo.

Obrigado por isso, Thunders!

Eu não tenho palavras para descrever o que eu realmente sinto agora, só sei que ouvir as pessoas dizendo para mim “parabéns, suas jogadoras são incríveis!” e saber que hoje elas têm consciência do potencial de cada uma e do que são capazes é minha maior recompensa.

De uma forma lúdica, eu sinto que ganhar o MVP do campeonato foi a recompensa – tangível – de todo o empenho, paciência e lágrimas que eu dediquei a esse time, e elas hoje sabem que são capazes de coisas incríveis e muito maiores!

Voltamos para casa nos sentindo diferentes, crescemos e, novamente, evoluímos de um grupo de pessoas com apenas um objetivo em comum, para um time, de um time para uma equipe e de uma equipe para uma família.

E eu sempre terei orgulho de dizer que faço parte de algo tão bonito, nunca desistirei e sempre insistirei em dizer o quanto elas são incríveis e capazes (não importa quantas vezes eu escute elas dizendo o contrário!) e sempre vou chorar de felicidade, orgulho e amor por cada uma das minhas teammates, porque eu acredito e confio em cada uma delas.

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#9 Chu