Nós ainda estamos aqui – O Roller Derby e a Representatividade Negra

Mais uma vez é 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A data histórica representa o assassinato do líder Quilombola Zumbi dos Palmares, que junto com Dandara dos Palmares, lutou pela libertação dos negros no Brasil.

No entanto, anos de repressão deixaram marcas visíveis até hoje em nossa sociedade. Negros, ainda que supostamente nas mesmas condições, encontram um nível elevado de obstáculos em relação a não-negros para chegar a qualquer lugar, seja ele um cargo ou posto social. A consciência real, o empoderamento e a revolta de cada dia são recém-nascidos (ou recém-acordados) na sociedade brasileira.

E é aí que entra o Roller Derby. A diversidade que envolve o esporte atrai pessoas de todos os gêneros, formas e ideais, aceitando-as como são e acolhendo-as como parte da família. Mas onde está a comunidade negra? Atualmente somos três. Mas por que não cinco, dez, doze?

Muitas vezes, não só no Brasil, é possível contar nos dedos quantos integrantes negros há em uma liga. Nós, na Wheels, somos três – a título de comparação, o Roster do time All-Star das Gotham Girls Roller Derby (que fez o aquecimento para a final do Campeonato da WFTDA usando a camiseta “Black Lives Matter”) conta com uma pessoa negra – Bonita Apple Bomb.

Além disso, o fato de o esporte ser inclusivo e repleto de pessoas compreensivas e dispostas a ouvir ideias e explicações alheias sobre temas que não dominam não nos isenta de ter de desconstruir conceitos profundamente enraizados e dar certas explicações.

TJ “Scarbie Doll” Edwards, criadora da Black Roller Derby Network – que reúne o maior número possível de pessoas negras envolvidas com o esporte, sejam jogadores, árbitros, treinadores e apoiadores (incluindo gênios da track como Freight Train, Trouble MakeHer e o próprio Quadzilla) – sintetiza o tema:

– Se não há propaganda do esporte direcionada à comunidade negra, ela não será representada nele;

– Às vezes, há coisas que só outro skater negro é capaz de entender.

Uma breve análise de adesivos, artes, vídeos, filmes e demais representações de Derby na mídia dá a entender que, de fato, não há, ou há pouquíssimos negros no esporte. De modo algum a culpa é da comunidade não-negra (o ponto é, inclusive, amplamente debatido pela  comunidade estrangeira. Até agora não se chegou a um entendimento comum do motivo pelo qual negr@s não entram ou não permanecem em ligas), mas quando “nós” não nos vemos, ficamos receosos de fazer parte de qualquer coisa, desde comprar um produto a tentar despontar em um esporte. Vejam bem, é difícil fazer história.

Foi desse modo que, após anos de história pelos quais ainda somos afetadas, surgiu esse pequeno manifesto. Dentro desse esporte maravilhoso que empodera e representa, desejamos ser agentes de empoderamento e representação daqueles que, por algum motivo, se sentem receosos de entrar em uma liga. Desejamos representar e sermos representadas por pessoas com o mesmo tipo de cabelo e cor da pele que nós.

A comunidade negra do Roller Derby existe, e ela não vai parar de rolar.

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Foto tirada no 4º Brasileirão de Roller Derby, em 2015, com integrantes de algumas ligas do Brasil. Hoje já é possível afirmar que há mais negras compondo os times, mas o número ainda é pequeno se comparado com a comunidade dérbyca.

 

PS.: recentemente foi criado um novo espaço seguro para troca de experiências e dicas, abrangendo toda a comunidade POC (“People of Color”) do Derby, representado pela página Shades of Skate!

Kira #93

Tornando-se uma Wheels

Eu nunca esquecerei quando eu vi pela primeira vez o filme Garota Fantástica e pensei “Cara se tivesse esse esporte aqui eu faria muito certo, eu sei andar de roller e quero muito isso!”. Acredito que isso foi em 2011.

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Então, em 2013, passando pelo prédio em que moro hoje me deparei com um lambe-lambe… Era o desenho de uma mina bem brabona de capacete. Dizia “Recrutamento das Wheels of Fire” e mencionava o tal de Roller Derby. Bateu uma emoção forte. Será que se tratava do mesmo esporte do filme? Será que as deusas escutaram as minhas preces?! Sim! Na realidade o esporte era diferente daquele mostrado no filme, era mais agressivo, contudo era praticado com patins e as minas desse rolê eram mó casca dura que nem as do filme, então pensei “Meu… é nesse lance que eu tenho que me meter”. Só em 2015 fui no recrutamento, pois antes tinha vários os compromissos e eu não queria acabar me apegando a algo de que não poderia fazer parte. Porém em 2015 também não pude entrar pro clube por não ter como investir em equipamentos. Mas em 2016 fui a um treino determinada a fazer parte da equipe sem medir esforços.

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Em Julho desse ano assinei o meu termo de compromisso, comprei meus equipamentos, passei a ir nos treinos, a buscar mais informações sobre o Roller Derby, as regras e o funcionamento do jogo. Parecia que ia ser difícil, mas não. A gente vai se apaixonando pelo Derby e isso torna o processo algo prazeroso, ainda mais com o apoio de todos que fazem parte das Wheels que estão sempre dispostos a explicar todas as dúvidas que tive e continuo tendo.

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16/10/2016 – Pós-Brasileirão. O primeiro jogo da minha vida. Apesar de ainda desequilibrar, de não saber todas as skills, de ter medo dos hits e de ter tido um certo arrependimento de ter me inscrito para o jogo sem contato, eu fui. Por dois motivos: me superar e para mostrar para as minhas colegas Wheels que eu não desistiria mesmo que eu fizesse tudo errado. Eu só queria mostrar pra elas que eu não vou fugir, que eu vou continuar tentando mesmo não tendo tanto tempo para treinar e melhorar meus conhecimentos. Eu vou continuar tentando, porque me apaixonei portudo que envolve o Roller Derby, inclusive coisas que vão além do jogo, como o fortalecimento do corpo e da mente, o companheirismo e o amor que envolve essa galera que mantém esse esporte de forma autônoma com tanta dedicação.

Isso para mim é ir contra o sistema.

Isso para mim é lindo demais.

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

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Foto por Joel Lima

JuJu #333

Entendendo as chaves de competição do International WFTDA Championship

Quem é mais experiente no roller derby (e quem quer conhecê-lo melhor) provavelmente já acessou o canal da WFTDA no youtube onde são disponibilizados todos os jogos sancionados pela entidade organizadora oficial do roller derby. Nele você acessa na íntegra os jogos da competição internacional entre-ligas oficial, o International WFTDA Championship. Porém, entender a organização do maior campeonato do esporte, com 60 times distribuídos em duas divisões, e quatro rodadas antes da competição final com os 12 melhores times, não é tão simples. Por isso, apresento aqui uma explicação simplificada da organização do campeonato:

Primeiramente, deve-se conhecer o ranking das ligas-membro da WFTDA. Trata-se de uma classificação feita pelo menos a cada bimestre, que classifica as ligas de forma que a 1ª colocada seja considerada a melhor liga de acordo com os critérios pré-definidos da WFTDA. Esses critérios levam em conta a quantidade de jogos ganhos nos últimos 12 meses, a diferença de pontos por jogo em relação ao adversário, bem como o quão desafiadores são os times contra os quais este jogou. Explicar o ranking daria um texto por si só, quem quiser conhecer o algoritmo de classificação pode acessar esse link. Mas basta saber que a classificação final em Junho serve de base para o campeonato, sendo que os 40 primeiros colocados são elegíveis para a 1ª divisão da competição, e os classificados de 41 a 60 jogam na 2ª divisão da competição.

Os 40 times da 1ª divisão são, então, distribuídos em 4 grupos para os playoffs (algo como “jogos antes da competição”) e em subgrupos chamados seeds (na tradução literal, “sementes”) da seguinte forma, levando em conta sua posição no ranking:

Vemos, por exemplo, que a primeira seed é composta dos primeiros 4 times do ranking, e o primeiro playoff é composto do 1º, 8º, 9º, 16º, 17º, 24º, 25º, 32º, 33º, e 40º colocados do ranking.

A distribuição dos times segue um modelo chamado S-curve Seeding (na tradução literal, “curva S de semeadura”) com a intenção de que, dentro dos playoffs haja uma distribuição homogênea e igualmente espaçada de times mais ou menos difíceis de se jogar contra, e que dentro das seeds hajam times igualmente desafiadores.

A partir dessa distribuição, ocorrem os jogos de cada um dos playoffs, como mini-campeonatos antes do campeonato final, cada um em uma data e local diferente, com 10 times competindo. De acordo com a seed em que o time está, ele é distribuído nas chaves de competição:

A imagem acima reflete a competição que ocorrerá em cada um dos quatro playoffs, já que cada um deles tem um time de cada seed.

Os times das seeds 7, 8, 9 e 10 estão mais baixo no ranking que os demais, e a estrutura da competição garante que eles joguem entre si antes de competir com os times melhor rankeados. Essa estrutura é comum a diversos esportes, garantindo que dois times supostamente melhores (de acordo com o ranking) não se enfrentem tão cedo na competição, eliminando um ao outro, o que daria chance para um time supostamente pior (de acordo com o ranking) terminar a competição numa posição melhor que estes. Assim, não há sorteio nas chaves da competição.

Também pela estrutura da competição, nem todos os times se enfrentam (o que seria bastante exaustivo, com 10 times) e cada time joga 3 ou 4 jogos.

A competição segue o esquema “mata-mata”, em que um time precisa ganhar todos os seus jogos para ser o vencedor, na primeira chave de jogos chamada de Elimination Bracket (“chave de eliminação”). Os times que perdem passam para a Consolation Bracket (“chave de consolação”) em que competem os jogos de 5º lugar para baixo dentro da competição. Na imagem podemos ver claramente como a classificação final da competição acontece.

Os times que ficam em 1º, 2º ou 3º lugar em seus respectivos playoffs (12 times ao total) competem no International WFTDA Championship propriamente dito. De acordo com sua posição nos playoffs (e não importando mais sua posição no ranking da WFTDA) os times são distribuídos nas chaves da competição. Segue exemplo do Championship 2015, em que a posição do time no playoff estão indicadas ao lado de seu logo, e os playoffs são diferenciados de acordo com as cores azul, amarela, rosa e verde.

No exemplo acima, Gotham Girls Roller Derby, Angel City Derby Girls e Minnesota RollerGirls foram respectivamente 1º, 2º e 3º lugar no playoff que competiram. As chaves garantem que os times joguem com times de diferentes playoffs ao menos até as semifinais. Também como nos playoffs, nem todos os times jogam entre si, e o esquema de competição é do tipo “mata-mata”.

Por outro lado, não há jogos em uma “chave de eliminação”, dessa forma apenas quatro times saem classificados como 1º, 2º, 3º e 4º lugar da competição, e os times que perdem seu primeiro ou seu segundo jogo estão eliminados da competição e não jogam mais. Assim, os times podem jogar 1, 2, 3 ou 4 jogos ao total, de acordo com seu desempenho.

Os jogos dos playoffs e do campeonato (entre outros) servirão de base para o ranking da WFTDA, que serão usados na competição do ano seguinte.

Para acompanhar notícias sobre o International WFTDA Championship, acesse o site da WFTDA e acompanhe jogos ao vivo na wftda.tv.

Carol Contravenção #10

Roller Derby é deixar-se ser – uma analogia com Fight Club

Conheci o Roller Derby aproximadamente uma semana antes do recrutamento do 1° de maio. Estava há muito tempo procurando um esporte pra praticar porque precisava baixar o meu colesterol e desestressar, e fugi de todas as lutas, jogos de quadra e aquáticos. Era tudo a mesma coisa, e eu já tinha experimentado (e me quebrado) o bastante.

Logo que me convidaram pro evento, pesquisei o que pude sobre o esporte e pensei só que:

female fight club

Naquela época eu fazia muitas atividades e dificilmente me comprometeria com outra. Faculdade e estágio todos os dias, yoga segundas e quartas, alemão na quarta à noite, perspectiva de participar de um grupo de pesquisa científica e sono, muito sono em todos os momentos. Meu namorado ainda me perguntou: “Se tu tá cansada e precisa dormir, como tu vai fazer mais uma atividade?”. Era verdade, eu já tinha passado do nível saudável do cansaço.

Eu era como o Narrador de Clube da Luta – cansado de tudo e não podendo abrir mão de nada.

cansada de tudo

E aí, quando eu finalmente cheguei no Recrutamento, eu descobri que aquele era o esporte diferente que eu estava procurando. Eu não tinha qualquer lembrança de infância de ter rodinhas sob os pés, e hoje eu já acho estranho não as ter. Como se o normal fosse simplesmente deslizar por aí sem ter que levantar os pés e colocar um na frente do outro, coisa que faço muito mal por sinal. Assistir à demonstração das veteranas naquele dia, e não entender nada, foi o necessário pra acender aquela faísca de vontade. E ir nos treinos (no começo foi bem complicado, tudo doía e parecia que eu estava aprendendo a andar de novo) me fez entender o porquê das pessoas se viciarem em esporte.

Eu passei a ser Tyler Durden, embora menos inconsequente, mas vivendo com mais vontade.

tyler durden

O Derby, e a equipe, me ensinaram alguns conceitos que eu já tinha esquecido. A gente cansa, e nossos músculos não funcionam, mas eles ficam mais fortes. A gente abdica, deixa de sair (ou de ficar em casa) pra treinar, mas a gente evolui. A gente ouve certos comandos e desenvolve certas birras, mas cria consciência de jogo e entende que aquela teammate só quer que a gente seja uma boa skater. Estar em uma equipe é confiar nas outras e deixar que confiem em ti. Além de tudo isso, é ter a liberdade pra ser aquela pessoa legal e esforçada que a gente sempre quis, através de um alter ego, e levar isso aos poucos pra fora da track.

 

Roller Derby é deixar-se ser e se aceitar para evoluir, e aceitar as consequências disso. Hoje, me vejo uma pessoa mais esforçada, com mais foco, mais saudável, menos estressada e, principalmente, menos negativa sobre minhas capacidades.

just let it be

No entanto, a única explosão do final da minha história é a minha na track. Não tem prédio caindo, nem um cara de samba canção. Mas acaba tudo bem, eu garanto.

 

Khaotic Kira, #93

Para aprender estratégia e regras assistindo jogos

Ainda é comum (pelo menos no Brasil) que entremos numa equipe de roller derby sem entender as regras do jogo. Com o tempo vamos absorvendo algumas regras (a menina com a estrela no capacete marca pontos, as bloqueadoras devem impedir a adversária de passar, não é bom pisar fora da pista), mas muitos detalhes passam sem ser esclarecidos. Pra jogar o jogo de forma eficiente é necessário parar algumas – ou várias – vezes para ler as regras, e assistir jogos gravados é uma das melhores maneiras de entendê-las na prática.

Porém, um jogo de nível profissional é rápido e com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e para utilizá-lo no aprendizado é preciso fazer mais do que apenas assisti-lo. Pra assistir um jogo de maneira produtiva, eu listei aqui algumas práticas que utilizo, e que podem servir para mais pessoas.

1) ASSISTIR COM CALMA E TEMPO DISPONÍVEL.
Assista ao jogo parando nos momentos em que tiver dúvidas, e com as regras da WFTDA por perto. Mesmo que assista 15 minutos de jogo em uma hora, enquanto acompanha cada etapa da ação, chama as teammates para discutir e procura detalhes nas regras, o seu interesse maior é aprender, e não descobrir o placar final.

2) OLHAR PARA OS JUÍZES (E SABER O QUE ELES ESTÃO FAZENDO).
Acontecem ações em um momento em que você estava olhando outros detalhes, e de repente você vê uma jogadora indo para o banco. Caso não saiba o que aconteceu, volte o vídeo e preste atenção nos gestos que os juízes estão fazendo. É bem fácil achar na internet imagens e vídeos explicando os gestos dos juízes e o que eles significam. Sabendo o nome da falta, se ainda tiver dúvida, leia as regras e veja se identifica o movimento que a causou.

3) OLHAR (TAMBÉM) PRAS BLOCKERS.
É comum criarmos o hábito de olhar só para a ação das jammers, torcendo pra elas passarem. Mas você também quer atuar como blocker, ou pelo menos entender como blockers agem. Prestando atenção nisso vai conseguir identificar as diferentes formas de bloqueio dos times, e perceber como é a estratégia de um bloqueio eficiente.

4) DAR ATENÇÃO PARA AS REGRAS DE FALTA POSICIONAL.
O objetivo no jogo de roller derby não é fazer contato com as adversárias, mas evitar que estas tomem posição de vantagem. Vale a pena escolher pelo menos alguns momentos no jogo (como inícios de jam, power jams), tentar identificar padrões de posicionamento, seus resultados, as faltas que acontecem por causa dele.

5) SUPOR QUE AS JOGADORAS E JUÍZES ESTÃO SEMPRE FAZENDO A COISA MAIS INTELIGENTE A SER FEITA.
Você está assistindo jogadoras de alto nível competindo, pessoas nas quais você quer se espelhar. Caso veja alguém agindo de forma que você não considera estrategicamente eficiente, antes de considerar que ela está cometendo um erro, volte ao lance e revise os pontos a seguir:

• FALTA: Será que ela está agindo dessa maneira porque, se não o fizer, levará falta? Será que ela agiu de maneira não intencional, e efetivamente levou falta depois? Não confie que você conhece todos os detalhes das regras, pois detalhes pequenos fazem a diferença.
• IMPEDIMENTO: Será que ela não pretendia fazer outra coisa, mas foi impedida de completar seu intento por uma jogadora adversária?
• ESTRATÉGIA: Tem certeza que não é estrategicamente interessante agir da maneira que ela está agindo? Novamente, não confie que você sempre sabe a melhor estratégia a ser feita. É possível que o que você tem aprendido nos treinos sejam orientações para jogadoras iniciantes, mas jogadoras com mais técnica podem se permitir agir de maneira diferente.
• PONTO DE VISTA: Você está assistindo o jogo fora da ação, e vendo tudo de um ângulo privilegiado. Será que a jogadora agiu daquela maneira porque, da posição que estava e com as informações que possuía aquilo era a coisa mais eficiente a ser feita?
• EXAUSTÃO: Especialmente ao final do jogo, o desempenho de qualquer atleta cai. Talvez os movimentos e estratégias pareçam menos efetivos porque a jogadora está exausta.
Caso não se aplique nenhuma dessas situações, comece a considerar que a jogadora pode não ter tomado a melhor decisão naquele momento.

6) POR ÚLTIMO, FAZER PERGUNTAS, MESMO AS QUE PARECEM ÓBVIAS.
Nesses casos, geralmente acabamos descobrindo os detalhes das regras que fazem a diferença entre levar uma falta ou não, por entender o procedimento correto em cada caso.

Esse processo pode parecer cansativo, mas com o tempo não é preciso passar por todas essas etapas e assistir um jogo inteiro produtivamente sem interrupções. É possível assim aprender as regras e criar consciência de jogo fora dos treino, e isso se refletirá na track.

Carol Contravenção #10

Roller Derby e o Transtorno de Ansiedade

“A Helena fica no gol porque ela não sabe jogar!”

Eu até ficava feliz com isso, porque eu realmente nunca soube o que fazer durante aqueles 13 anos em que fui obrigada a frequentar aulas semanais de Educação Física na escola. Enfim, nunca gostei muito de praticar esportes, mas ainda assim tentei fazer várias coisas, natação, patinação artística, jazz, ginástica rítmica, ginástica olímpica, muay thai, musculação. Não rolou. De nadar e patinar eu gostava, mas não lembro bem por que parei porque eu era criança.

Bom, depois disso a vida começou a ficar séria, eu comecei a fazer uma infinidade de coisas, tipo estudar e trabalhar, e desisti de qualquer coisa relacionada a mexer o corpo, afinal, precisava terminar uma faculdade — depois de 8 longos anos — e seguir trabalhando.

Então eu finalmente me formei e em seguida comecei a trabalhar num lugar legal com pessoas legais, e quando tudo parecia bem, fui pega de surpresa: fui diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Ansiedade nada mais que é MEDO, e o TAG se caracteriza basicamente por preocupação em excesso e dificuldade de controle disso, além de deixar a pessoa inquieta, irritada, cansada e com muita tensão muscular.

Não foi muito fácil me dar conta que alguma coisa tava errada, nem procurar ajuda, mas foi um passo importante, e nada é mais confortante do que poder dividir essas coisas com as pessoas que eu gosto, e poder contar com elas nesse momento.

É aí que entra o Roller Derby: conheci o esporte há uns 3 anos, pela Dani do Mais Magenta, e me interessei muito, mas na época eu nem sabia que tinha liga em Porto Alegre. Aí no ano passado uma amiga minha entrou na equipe e me convidou pra participar, e eu super me empolguei, mas a série de problemas que eu tava enfrentando contribuiu pra que eu demorasse pra conhecer as Wheels, a primeira liga de Roller Derby de Porto Alegre.

Conseguir sair de casa sozinha — e de bicicleta — pra ir até o Gasômetro pro recrutamento das Wheels, foi algo incrível, pois eu não tava conseguindo fazer nada sozinha há algum tempo, e mesmo quando tinha companhia, conviver socialmente não tava sendo muito animador. Cheguei lá e saber que ia encontrar um rosto conhecido facilitou, mas de cara eu me senti muito de ‘bowie’ entre as gurias da equipe.

Voltei pra casa incrivelmente feliz por ter patinado depois de tantos anos — e pelo progresso em relação às limitações que a ansiedade vinha me trazendo — e com uma certeza: EU QUERO FAZER PARTE DESSA EQUIPE LINDA.

Tudo isso faz só 2 meses, mas parece muito mais. Me sinto incrivelmente bem com as meninas (e o menino) da Wheels, somos uma família. Sinto que ali eu posso ser eu mesma, posso ser quem eu quiser, e que por mais diferentes que sejamos, eu me identifico um pouco com cada um. Na Wheels tem espaço para todo mundo!

Conviver com pessoas que me aceitam como sou, usar minha energia em algo muito legal, conhecer e analisar minhas limitações, aprender que ter paciência é muito importante, festejar os progressos, tudo tem contribuído muito para a minha recuperação! Hoje me sinto muito mais forte, e posso dizer que a Helena vai de jammer, não só porque ela quer, mas porque ela consegue! 

Obrigada equipe!

2014, o ano do Roller Derby no Brasil?

Desde o início, 2014 já dava indícios de que seria um grande ano para o Roller Derby brasileiro. Enxerguei praticamente todas as ligas ativas finalmente tendo uma dimensão real da cena brasileira e do que fazer nela. A meu ver, o 2º Brasilierão, em São Paulo, foi o estopim. Hoje eu diria que essa perspectiva de causa e efeito se concretizou, e vale muito refletir sobre ela.

Certamente há quem conteste esse ponto de vista, principalmente se considerarmos os grupos e pessoas que não ficaram tão satisfeitos com o evento ou que até mesmo não participaram. Ainda assim, acho que o evento atingiu tudo, mesmo que indiretamente. Do segundo brasileirão não saiu só contentamento e integração, mas também motivação e embasamento para fazer mais ou até mesmo diferente.

Entendo que a ideia de 2014 ter sido um ótimo ano possa soar controversa, principalmente quando lembro que não foi exatamente um ano de evolução e prosperidade para todo mundo. Algumas ligas ficaram estagnadas, outras diminuíram, e muitas acabaram. Pessoas também se afastaram, como é de se esperar. Quando isso é o que foi mais evidente para alguns, nada mais lógico do que acharem hipócrita ou irreal a imagem que estou compartilhando.

Em minha defesa, o que me permite concluir que foi um ótimo ano é minha participação como árbitro. A partir do momento em que me assumo como Ref, não só tenho a possibilidade de enxergar ligas e pessoas por um espectro mais amplo, distante, mas também tenho isso como uma obrigação, o que me dá um ponto de vista privilegiado para pensar nas conquistas e problemas do nosso esporte. Daí, veio a vontade de discutir abertamente o que penso.

Uma complicação de falar sobre isso é soar pretensioso e arrogante, já que talvez não tenha tanta novidade no meu discurso. Outro problema é a rispidez do texto que segue, que tentarei atenuar mas não eliminar. Às vezes é necessário. Aproveito então para lembrar que essas são apenas minhas impressões, sem nenhuma intenção de combater as realizações, iniciativas e aspirações de ninguém, tampouco direcionar críticas para pessoas ou grupos específicos. Inclusive, posso estar completamente enganado sobre algumas coisas, e ao tentar provocar uma reflexão com aplicação real acabar ferindo sentimentos alheios. Espero que não, mas prefiro correr esse risco.

O ponto principal é a importância dos avanços que surgem apenas da interação em eventos. Isso é bastante óbvio, tanto que a quantidade de eventos abertos e com propósitos diversos aumentou absurdamente, e alguns anúncios e rumores recentes já indicam que esse ritmo vai seguir. O que talvez não se observe com tanta facilidade é que se essas oportunidades continuarem surgindo de maneira muito espontânea, sem entrosamento, teremos oferta, mas não demanda. Se isso acontecer, teremos muitos eventos, mas todos com pouca procura, o que vai acabar afetando o retorno para todos os envolvidos, e, por fim, desestimular grandes iniciativas do RD em geral. Isso já aconteceu em 2014, mas 2015 pode ser diferente.

Para evitar isso, eventos que dependem do mesmo público ou com finalidade similar acontecendo em intervalos muito próximos deveriam ser repensados com cuidado. Essa seria uma questão mais fácil de resolver se dependesse só de cada organizador avaliar o que já foi anunciado e programar de acordo, mas o problema é que enquanto uma parte está só acertando detalhes, tem outra fazendo a mesma coisa, e não raro as duas escolhem datas que se excluem. Para quem tem experiência no underground da música, vale uma comparação – é exatamente como quando marcam dois shows locais, de um mesmo estilo, em um mesmo final de semana. A diferença é que produtores de shows muitas vezes não podem se comunicar, nem se quisessem, mas atualmente no Roller Derby do Brasil isso é possível, basta querer.

Por que isso não acontece, então? Boa parte das preparações são conduzidas com um sigilo totalmente desnecessário e improdutivo. Consigo entender a motivação, mas não aprovo, pelo menos por enquanto. É com boas intenções que se opta por não divulgar informações preliminares e não confirmadas, como evitar gerar expectativas que podem não ser realizadas e proteger a própria credibilidade. Só que a prática já mostrou que isso não funciona, essa linha de raciocínio ainda não se aplica ao nosso estágio atual, que é de formação de uma unidade nacional. É preciso assumir que estamos nesse estágio, e não só esperar a colaboração e opinião dos interessados, mas ir atrás disso. É vital ser transparente e se expor para ter uma visão das necessidades reais de quem vai participar, que, por sinal, também tem responsabilidades e deveres na expansão da cena nacional.

A mentalidade geral de quem consome jogos, bootcamps e afins precisa deixar de ser parasitária e egocêntrica de uma vez por todas, pelo bem do próprio esporte. Ao invés de se pensar só no melhor custo-benefício por habilidades de patinação, começar a pensar na integração como o maior e melhor dos benefícios, com a consciência de que muitas vezes isso vai exigir agregar, e não só absorver. A boa notícia é que agregar sempre é produtivo de alguma forma. E se ainda resta dúvida que a participação em si é o que conta, procure a pessoa mais próxima que teve de ir a um evento lesionada, pergunte se valeu a pena. Me avise se escutar um “não” como resposta, pois eu nunca ouvi.

Enquanto termino de escrever esse texto, nossas amigas e heroínas da seleção brasileira estão realizando um sonho no mundial em Dallas. Uma grande realização que tomou grande forma nos eventos de 2014. Quem esteve em algum deles, ajudou nisso de alguma forma. Agora, pense que existem outros sonhos, mais simples e próximos, que com um pouco de envolvimento e dedicação podem se concretizar até o final de 2015. Na minha conta, temos três eventos abertos e grandes programados (Twisted and Mixed, Brasileirão e Batalha da Ponte Aérea) e provavelmente vem mais por aí. Vamos nos organizar.

por Luiz Prado (80beats)