Nós ainda estamos aqui – O Roller Derby e a Representatividade Negra

Mais uma vez é 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A data histórica representa o assassinato do líder Quilombola Zumbi dos Palmares, que junto com Dandara dos Palmares, lutou pela libertação dos negros no Brasil.

No entanto, anos de repressão deixaram marcas visíveis até hoje em nossa sociedade. Negros, ainda que supostamente nas mesmas condições, encontram um nível elevado de obstáculos em relação a não-negros para chegar a qualquer lugar, seja ele um cargo ou posto social. A consciência real, o empoderamento e a revolta de cada dia são recém-nascidos (ou recém-acordados) na sociedade brasileira.

E é aí que entra o Roller Derby. A diversidade que envolve o esporte atrai pessoas de todos os gêneros, formas e ideais, aceitando-as como são e acolhendo-as como parte da família. Mas onde está a comunidade negra? Atualmente somos três. Mas por que não cinco, dez, doze?

Muitas vezes, não só no Brasil, é possível contar nos dedos quantos integrantes negros há em uma liga. Nós, na Wheels, somos três – a título de comparação, o Roster do time All-Star das Gotham Girls Roller Derby (que fez o aquecimento para a final do Campeonato da WFTDA usando a camiseta “Black Lives Matter”) conta com uma pessoa negra – Bonita Apple Bomb.

Além disso, o fato de o esporte ser inclusivo e repleto de pessoas compreensivas e dispostas a ouvir ideias e explicações alheias sobre temas que não dominam não nos isenta de ter de desconstruir conceitos profundamente enraizados e dar certas explicações.

TJ “Scarbie Doll” Edwards, criadora da Black Roller Derby Network – que reúne o maior número possível de pessoas negras envolvidas com o esporte, sejam jogadores, árbitros, treinadores e apoiadores (incluindo gênios da track como Freight Train, Trouble MakeHer e o próprio Quadzilla) – sintetiza o tema:

– Se não há propaganda do esporte direcionada à comunidade negra, ela não será representada nele;

– Às vezes, há coisas que só outro skater negro é capaz de entender.

Uma breve análise de adesivos, artes, vídeos, filmes e demais representações de Derby na mídia dá a entender que, de fato, não há, ou há pouquíssimos negros no esporte. De modo algum a culpa é da comunidade não-negra (o ponto é, inclusive, amplamente debatido pela  comunidade estrangeira. Até agora não se chegou a um entendimento comum do motivo pelo qual negr@s não entram ou não permanecem em ligas), mas quando “nós” não nos vemos, ficamos receosos de fazer parte de qualquer coisa, desde comprar um produto a tentar despontar em um esporte. Vejam bem, é difícil fazer história.

Foi desse modo que, após anos de história pelos quais ainda somos afetadas, surgiu esse pequeno manifesto. Dentro desse esporte maravilhoso que empodera e representa, desejamos ser agentes de empoderamento e representação daqueles que, por algum motivo, se sentem receosos de entrar em uma liga. Desejamos representar e sermos representadas por pessoas com o mesmo tipo de cabelo e cor da pele que nós.

A comunidade negra do Roller Derby existe, e ela não vai parar de rolar.

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Foto tirada no 4º Brasileirão de Roller Derby, em 2015, com integrantes de algumas ligas do Brasil. Hoje já é possível afirmar que há mais negras compondo os times, mas o número ainda é pequeno se comparado com a comunidade dérbyca.

 

PS.: recentemente foi criado um novo espaço seguro para troca de experiências e dicas, abrangendo toda a comunidade POC (“People of Color”) do Derby, representado pela página Shades of Skate!

Kira #93

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Entendendo as chaves de competição do International WFTDA Championship

Quem é mais experiente no roller derby (e quem quer conhecê-lo melhor) provavelmente já acessou o canal da WFTDA no youtube onde são disponibilizados todos os jogos sancionados pela entidade organizadora oficial do roller derby. Nele você acessa na íntegra os jogos da competição internacional entre-ligas oficial, o International WFTDA Championship. Porém, entender a organização do maior campeonato do esporte, com 60 times distribuídos em duas divisões, e quatro rodadas antes da competição final com os 12 melhores times, não é tão simples. Por isso, apresento aqui uma explicação simplificada da organização do campeonato:

Primeiramente, deve-se conhecer o ranking das ligas-membro da WFTDA. Trata-se de uma classificação feita pelo menos a cada bimestre, que classifica as ligas de forma que a 1ª colocada seja considerada a melhor liga de acordo com os critérios pré-definidos da WFTDA. Esses critérios levam em conta a quantidade de jogos ganhos nos últimos 12 meses, a diferença de pontos por jogo em relação ao adversário, bem como o quão desafiadores são os times contra os quais este jogou. Explicar o ranking daria um texto por si só, quem quiser conhecer o algoritmo de classificação pode acessar esse link. Mas basta saber que a classificação final em Junho serve de base para o campeonato, sendo que os 40 primeiros colocados são elegíveis para a 1ª divisão da competição, e os classificados de 41 a 60 jogam na 2ª divisão da competição.

Os 40 times da 1ª divisão são, então, distribuídos em 4 grupos para os playoffs (algo como “jogos antes da competição”) e em subgrupos chamados seeds (na tradução literal, “sementes”) da seguinte forma, levando em conta sua posição no ranking:

Vemos, por exemplo, que a primeira seed é composta dos primeiros 4 times do ranking, e o primeiro playoff é composto do 1º, 8º, 9º, 16º, 17º, 24º, 25º, 32º, 33º, e 40º colocados do ranking.

A distribuição dos times segue um modelo chamado S-curve Seeding (na tradução literal, “curva S de semeadura”) com a intenção de que, dentro dos playoffs haja uma distribuição homogênea e igualmente espaçada de times mais ou menos difíceis de se jogar contra, e que dentro das seeds hajam times igualmente desafiadores.

A partir dessa distribuição, ocorrem os jogos de cada um dos playoffs, como mini-campeonatos antes do campeonato final, cada um em uma data e local diferente, com 10 times competindo. De acordo com a seed em que o time está, ele é distribuído nas chaves de competição:

A imagem acima reflete a competição que ocorrerá em cada um dos quatro playoffs, já que cada um deles tem um time de cada seed.

Os times das seeds 7, 8, 9 e 10 estão mais baixo no ranking que os demais, e a estrutura da competição garante que eles joguem entre si antes de competir com os times melhor rankeados. Essa estrutura é comum a diversos esportes, garantindo que dois times supostamente melhores (de acordo com o ranking) não se enfrentem tão cedo na competição, eliminando um ao outro, o que daria chance para um time supostamente pior (de acordo com o ranking) terminar a competição numa posição melhor que estes. Assim, não há sorteio nas chaves da competição.

Também pela estrutura da competição, nem todos os times se enfrentam (o que seria bastante exaustivo, com 10 times) e cada time joga 3 ou 4 jogos.

A competição segue o esquema “mata-mata”, em que um time precisa ganhar todos os seus jogos para ser o vencedor, na primeira chave de jogos chamada de Elimination Bracket (“chave de eliminação”). Os times que perdem passam para a Consolation Bracket (“chave de consolação”) em que competem os jogos de 5º lugar para baixo dentro da competição. Na imagem podemos ver claramente como a classificação final da competição acontece.

Os times que ficam em 1º, 2º ou 3º lugar em seus respectivos playoffs (12 times ao total) competem no International WFTDA Championship propriamente dito. De acordo com sua posição nos playoffs (e não importando mais sua posição no ranking da WFTDA) os times são distribuídos nas chaves da competição. Segue exemplo do Championship 2015, em que a posição do time no playoff estão indicadas ao lado de seu logo, e os playoffs são diferenciados de acordo com as cores azul, amarela, rosa e verde.

No exemplo acima, Gotham Girls Roller Derby, Angel City Derby Girls e Minnesota RollerGirls foram respectivamente 1º, 2º e 3º lugar no playoff que competiram. As chaves garantem que os times joguem com times de diferentes playoffs ao menos até as semifinais. Também como nos playoffs, nem todos os times jogam entre si, e o esquema de competição é do tipo “mata-mata”.

Por outro lado, não há jogos em uma “chave de eliminação”, dessa forma apenas quatro times saem classificados como 1º, 2º, 3º e 4º lugar da competição, e os times que perdem seu primeiro ou seu segundo jogo estão eliminados da competição e não jogam mais. Assim, os times podem jogar 1, 2, 3 ou 4 jogos ao total, de acordo com seu desempenho.

Os jogos dos playoffs e do campeonato (entre outros) servirão de base para o ranking da WFTDA, que serão usados na competição do ano seguinte.

Para acompanhar notícias sobre o International WFTDA Championship, acesse o site da WFTDA e acompanhe jogos ao vivo na wftda.tv.

Carol Contravenção #10

Por que você deve treinar o seu cérebro tanto quanto o seu corpo

*Texto Original: “Why you must train your brain as much as your body “de Treble Maker #909
*Tradução livre por Bruna Medeiros

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Resistência mental é tão importante quanto força física quando o assunto é esporte.

Quando você começa como fresh meat, você está aprendendo todas estas novas skills; exigindo mais do que nunca do seu corpo; colocando pressão sobre si mesma para passar nas minimum skills e para descobrir tudo sobre as regras de Roller Derby. Você começa a pensar que você precisa ficar mais forte e trabalhar sua aptidão física, precisa fazer treinamentos off skates, treinamento de agilidade, mas o que fica faltando na maioria das vezes é o treinamento mental.

As pessoas parecem pensar que resistência mental é algo que você só vai precisar quando começar a atingir níveis superiores no esporte, mas não poderiam estar mais erradas.

Os melhores esportistas do mundo geralmente são aqueles que compreendem a importância da resistência mental desde o início.

A força mental não é algo que adquirimos da noite para o dia. Assim como a força física, é resultado de uma prática constante que envolve ajustes e revisões no seu desenvolvimento para obter os melhores resultados.

Começar o treinamento de resistência mental cedo não só significa que quando você estiver em um nível superior você já terá mais habilidade, como também vai tornar a sua experiência como fresh muito mais agradável e benéfica.

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O que é resistência mental
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Definição, segundo Wikipédia:

  1. Resistência mental são diversas atribuições que permitem a uma pessoa persistir apesar de circunstâncias difíceis (assim como um treino difícil ou uma situação competitiva difícil em jogos) sem perder a confiança.

Ou, em outras palavras: a habilidade de dar duro e fazer o que for necessário; resistir às críticas e aprender com os erros; aquela qualidade interna que faz com que cada um dê o seu melhor, sustente suas paixões e objetivos de longo data, independentemente, ou apesar das dificuldades que enfrente. Resistência mental é manter a cabeça no lugar quando todo mundo a sua volta está perdendo a deles; sentir a pressão e saber lidar com isso.

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Por que resistência mental é importante? 

No esporte ocorrem erros. Muitos, muitos erros. Erros nos treinos – ainda não consigo fazer derby stop!Erros nos jogos – Perdemos! Eu entreguei um power jam! – E erros como não passar nas minimum skills ou integrar o time. Tantos erros, grandes e pequenos, que, se você não for mentalmente resiliente, vai fazer com que se sinta como um fracasso.

E isso pode fazer você desistir e ir embora.

Você precisa ser mentalmente forte para lidar com todas essas falhas, grandes e pequenas, aprender com elas e usá-las para melhorar.

Você também precisa ser mentalmente forte pelo seu time. Quando você vai pra track, precisa poder confiar em cada teammate na line up. Precisa saber que sua jammer sabe lidar com a pressão e ficar tranquila. Precisa saber que não vai acabar fazendo o papel de duas jogadoras porque sua blocker não consegue manter a calma e acaba saindo do jogo.

Roller Derby é um esporte de equipe e como parte da equipe, é sua responsabilidade ser forte por elas, mental e fisicamente. Ninguém vai te forçar a fazer treinamentos off skates e ninguém vai te forçar a fazer treinamento mental, mas se você quer ser a melhor teammate que puder, tem que assumir a responsabilidade e treinar corpo e mente.

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Dicas rápidas de resistência mental

Torne-se autoconsciente

Você não pode se tornar mais forte se não estiver consciente das suas fraquezas. Comece levando em conta como você se sente e o que pensa quando percebe pressão ou fracasso. Sente raiva? Seu ritmo cardíaco vai lá no céu? Você perde o foco? Consegue esquecer o fracasso facilmente? Você tem “jamnésia”? Descobrir se nossas respostas a estas perguntas são positivas ou negativas, e, no caso de serem negativas, tentar mudá-las.

Controle somente o que consegue controlar

Compreender que você não pode controlar tudo; o que outras pessoas vão fazer ou dizer; como os coaches vão marcar você; quão forte e resistente o outro time é; decisões dos refs… Perceber que estressar por coisas que não estão em seu controle é uma perda de tempo. Em vez disso concentre sua energia no que você pode controlar; sua força e aptidão física; o quanto se esforça nos treinos; quanta pesquisa pode fazer sobre o outro time/local do jogo; quantos jogos assiste e analisa… Concentrando nas coisas que você consegue de fato controlar vai diminuir sua ansiedade e consequentemente vai focar nas coisas que realmente importam.

Eu só tenho controle das coisas que faço.

Perceber que a pressão está na sua cabeça

Ninguém pode te fazer sentir pressionado. Pressão é algo que você percebe ou decide sentir. Nos sentimos pressionados quando projetamos uma visão imaginária do futuro, cheio de expetativas negativas. Expectativas que são fruto da nossa imaginação! Pressão nada mais é do que um monte de “e se…”; e se eu falhar; e se eu perder; e se eu estragar tudo? Pressão é pensar sobre o resultado e as coisas que estão fora do nosso controle. Quando se sentir pressionado, tente focar na tarefa que foi designada; em vez de “eu preciso marcar pontos!” pense “passar entre as aberturas, velocidade nos pés e impulso. Ou ao invés de “eu não posso perder a jammer!” pense “abrir espaço, foco, comunicação”. Tirar o foco da pressão centrando apenas no aqui e agora, na sua função atual.

Coragem é graça sob pressão.”

Ver os fracassos como oportunidades

Falhas são, na verdade, incrivelmente valiosas. Elas te dizem uma coisa; o que você fez de errado e o que pode melhorar. Ao invés de levar como um golpe para o ego, engula e use cada falha como uma lição. Reveja, analise e ajuste, em seguida, tente novamente. Não resida no fracasso, aprenda com ele e então siga em frente.

O passado é só treino; ele não te define.

Pare de se comparar com os outros

Comparação é, de fato, o que rouba a diversão. É desmotivador, prejudicial e não te deixa mais perto dos seus objetivos. Comparação não é pensar “Nossa, como ela faz aquilo? Um dia eu chego lá! Vou pedir dicas…” Comparações é “Uau, ela é tão melhor que eu, porque eu não consigo fazer isso? Eu nunca vou conseguir, eu sou muito bosta!” Comparações depreciam o trabalho que a pessoa que você tem inveja investiu para ficar tão boa. E você também pode ser tão boa quanto ela se se esforçar! Para manter a motivação você tem que fazê-lo por você, não para ser melhor do que alguém. Se você achar que é demais, ninguém mais importa!

 “Não compare o seu 1º capítulo como o capítulo 20 de alguém.”

Foco no processo

Se você só está focando no destino, está perdendo a diversão que é a jornada. Ganhar é ótimo, mas se você só tiver a vitória como objetivo, perder se torna absolutamente terrível. Se, no entanto, você tiver como objetivo “jogar bem” ou bater com força, enquanto conseguir isso nos jogos você vai “ganhar” independentemente do resultado. Também se aplica no processo de aprendizagem das skills; seu objetivo principal pode ser pular alto, mas antes de mais nada é preciso alcançar as metas dentro deste processo – fortalecer a perna de impulso, praticar pulos off skates, praticar saltos de patins, praticar pulos altos sozinha, com blockers, e, finalmente, praticar saltos em situação de jogo. Focando em atingir o menor dos objetivos, e aumentando a meta irá evitar o desapontamento se não atingir o objetivo de imediato.

Se você focar nos resultados, nunca vai mudar. Mas se você focar na mudança, verá os resultados.”

Use a sua imaginação

Ao invés de usar nossa imaginação para pensar em resultados negativos e na tensão, nós podemos utilizá-la para mentalmente, praticar, preparar, reorientar e construir confiança. Antes de pôr em prática – seja antes, durante ou depois do jogo, ou até antes e durante os treinos – imagine-se fazendo aquilo bem e obtendo sucesso ao fazê-lo. Tenha em mente uma imagem tão vívida e realista quanto for possível, incluindo paisagens, cheiros e sensações. Sua mente não sabe a diferença entre a vida real e a imaginação, logo, responde da mesma forma a ambos. Use imagens mentais positivas para botar para fora os pensamentos negativos e assim, recompor seu corpo e mente para o que você está prestes a executar, retomando o foco na tarefa a ser cumprida.

Visualização positiva invoca a lei da atração:

Você só vai conseguir se acreditar

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O derby que muda vidas

Durante meu ensino fundamental eu era a guria dos esportes, praticava ginástica artística, atletismo, handball, vôlei, salto em distância, corrida de revezamento, enfim… Amava tudo o que eu fazia e sempre me dediquei muito. Quando passei para o ensino médio, e pra faculdade, o sedentarismo tomou conta do meu corpo, tornando uma simples caminhada algo impossível de se realizar.

No final de 2014 o interesse por esportes despertou em mim novamente. Fui em busca de esportes diferentes, algo que eu pudesse me divertir sem pensar que na verdade eu estava praticando exercício. Pensei em patins. Andei algumas vezes numa curta fase da minha infância e me diverti muito nessa época. Pesquisei alguns esportes, alguns equipamentos, mas estacionei. Praticar um esporte simplesmente pela prática, sem paixão, não fazia sentido pra mim.

Em uma maratona de filmes, que costumava fazer aos sábados à noite com meu namorado, Continuar lendo

O bronze que vale ouro

Foto por Fernando Marinho

A NSO avisa “FIVE SECONDS!” Estou na jammer line e mentalmente conto: “5… 4… 3… 2… 1!” Soa o apito e eu saio correndo em direção a wall adversária, empurro, surfo, me desloco lateralmente, forço, forço, forço…(não dá para desistir, não é uma opção)… São muitos estímulos visuais e sonoros, são muitas coisas para prestar atenção… Eu continuo forçando e surfando até que eu consigo passar, fui a primeira! Consegui, sou lead!

Aí vem o silêncio, o imenso silêncio que toma conta de mim… Eu continuo correndo, e naqueles segundos só escuto o som da minha respiração e do vento, até que… A wall está ali de novo me esperando, barulhos, empurrões… Um novo obstáculo que eu preciso passar e não posso desistir. Passo, chamo, encerro e tudo começa de novo.

A vida no Derby é como uma jam de cada vez, pelo menos é assim que eu gosto de comparar… É sofrido, desgastante, barulhento e cansativo… Às vezes nós pegamos a lead, às vezes não, mas a única certeza que temos é: não podemos desistir nunca!

Paciência, determinação, automotivação e esperança são palavras que eu repito constantemente para mim mesma desde que eu entrei no time. Nesses três anos de equipe eu vi os altos e baixos, as jogadoras chegando no time e indo embora e sempre repeti para mim: “paciência, não desiste”. Inicialmente, foi difícil entender como funcionava uma equipe, éramos apenas um grupo de pessoas com o objetivo comum de jogar Roller Derby, mas era cada uma por si e o Universo por todas… Levou dois anos e meio para que as Wheels of Fire se tornassem uma equipe organizada e apta para competir. Enfrentamos muitas adversidades, períodos de hiato e treinos com apenas duas pessoas, mas não desistimos. Não dá para desistir de algo que nos faz tão bem… A promessa de jogar, às vezes, se tornava apenas um sonho ou uma fantasia e nesse meio tempo perdíamos jogadoras. Pouca gente ficou e até hoje não entendo o motivo, mas sei que existem coisas que não precisam ser explicadas. Crescemos e amadurecemos como atletas e como pessoas nesses três anos e aprendemos a lidar com os problemas e a sermos pessoas melhores, com amor e empatia, pois sem isso não há base que segure um time. Aprendemos a viver com as diferenças e hoje agradecemos por elas existirem, pois são as diferentes pessoas que fazem parte das Wheels que tornam essa equipe o que ela é hoje: forte, focada e unida. Também aprendemos que o que fizermos para o time deve ser livre de intenções de reconhecimento e de egos, não podemos esperar que as pessoas nos reconheçam, nos amem, nos adorem pelo fato de passarmos o treino, administrarmos a liga ou qualquer outra coisa que façamos no time. Devemos sempre lembrar que dedicamos tempo e dinheiro ao Derby porque amamos o esporte e não porque precisamos de reconhecimento. Aliás, se essa é a sua intenção, meu amigo, larga fora.

Eu não sei qual foi a sensação das minhas Wheels nesse campeonato, mas sei qual foi a minha: foi uma mistura de orgulho, amor, felicidade, orgulho (sim, de novo), ansiedade e sensação de dever cumprido. Vê-las jogando contra as Rebels (eu havia sido ejetada) organizadas e conectadas, reproduzindo o que tinham aprendido em treino, seguindo em frente quando conseguiam executar a jogada e quando não conseguiam também, atacando e defendendo… Foi lindo, me senti como uma mãe deve se sentir vendo os filhos fazendo algo de forma independente, enchi os olhos d’água e sorri de felicidade: “elas são incríveis, fazem tudo sozinhas e perfeitamente”, pensei. Fiquei feliz porque passei o ano inteiro dando broncas e tentando convencer cada uma delas do quão incríveis elas são e sempre escutava: “não sou, não sei fazer, não consigo”, mas eu sempre soube, então esperei pacientemente chegar o dia em que elas veriam com os próprios olhos o quanto elas são capazes. E esse dia chegou. Elas estavam nervosas, eu também, e quando foi necessário – na hora do aperto – elas encontraram dentro de si forças para fazer o melhor que podiam, e fizeram isso lindamente.

Nós perdemos para as Rebels, mas ganhamos algo melhor: caráter de jogo. Jogamos com um time experiente e isso nos ajudou a melhorarmos como jogadoras.

Sem tristeza nem sentimento de derrota comemoramos nosso primeiro jogo como um time comemora uma vitória!

No segundo jogo vislumbrei outro time, um time mais maduro e mais focado, um time mais tranquilo… O jogo foi ótimo, algo tinha mudado e foi para melhor, eu tive a chance de jogar com elas lado a lado, bloqueando e jammando, sabendo que éramos uma extensão uma da outra, que sabíamos o que fazer e quando. Ouso dizer que Wheels x Thunders foi o melhor jogo do campeonato, foi acirrado e teve tudo o que um jogo precisa: ação, emoção e jogo limpo.

Obrigado por isso, Thunders!

Eu não tenho palavras para descrever o que eu realmente sinto agora, só sei que ouvir as pessoas dizendo para mim “parabéns, suas jogadoras são incríveis!” e saber que hoje elas têm consciência do potencial de cada uma e do que são capazes é minha maior recompensa.

De uma forma lúdica, eu sinto que ganhar o MVP do campeonato foi a recompensa – tangível – de todo o empenho, paciência e lágrimas que eu dediquei a esse time, e elas hoje sabem que são capazes de coisas incríveis e muito maiores!

Voltamos para casa nos sentindo diferentes, crescemos e, novamente, evoluímos de um grupo de pessoas com apenas um objetivo em comum, para um time, de um time para uma equipe e de uma equipe para uma família.

E eu sempre terei orgulho de dizer que faço parte de algo tão bonito, nunca desistirei e sempre insistirei em dizer o quanto elas são incríveis e capazes (não importa quantas vezes eu escute elas dizendo o contrário!) e sempre vou chorar de felicidade, orgulho e amor por cada uma das minhas teammates, porque eu acredito e confio em cada uma delas.

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#9 Chu

Roller Derby é deixar-se ser – uma analogia com Fight Club

Conheci o Roller Derby aproximadamente uma semana antes do recrutamento do 1° de maio. Estava há muito tempo procurando um esporte pra praticar porque precisava baixar o meu colesterol e desestressar, e fugi de todas as lutas, jogos de quadra e aquáticos. Era tudo a mesma coisa, e eu já tinha experimentado (e me quebrado) o bastante.

Logo que me convidaram pro evento, pesquisei o que pude sobre o esporte e pensei só que:

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Naquela época eu fazia muitas atividades e dificilmente me comprometeria com outra. Faculdade e estágio todos os dias, yoga segundas e quartas, alemão na quarta à noite, perspectiva de participar de um grupo de pesquisa científica e sono, muito sono em todos os momentos. Meu namorado ainda me perguntou: “Se tu tá cansada e precisa dormir, como tu vai fazer mais uma atividade?”. Era verdade, eu já tinha passado do nível saudável do cansaço.

Eu era como o Narrador de Clube da Luta – cansado de tudo e não podendo abrir mão de nada.

cansada de tudo

E aí, quando eu finalmente cheguei no Recrutamento, eu descobri que aquele era o esporte diferente que eu estava procurando. Eu não tinha qualquer lembrança de infância de ter rodinhas sob os pés, e hoje eu já acho estranho não as ter. Como se o normal fosse simplesmente deslizar por aí sem ter que levantar os pés e colocar um na frente do outro, coisa que faço muito mal por sinal. Assistir à demonstração das veteranas naquele dia, e não entender nada, foi o necessário pra acender aquela faísca de vontade. E ir nos treinos (no começo foi bem complicado, tudo doía e parecia que eu estava aprendendo a andar de novo) me fez entender o porquê das pessoas se viciarem em esporte.

Eu passei a ser Tyler Durden, embora menos inconsequente, mas vivendo com mais vontade.

tyler durden

O Derby, e a equipe, me ensinaram alguns conceitos que eu já tinha esquecido. A gente cansa, e nossos músculos não funcionam, mas eles ficam mais fortes. A gente abdica, deixa de sair (ou de ficar em casa) pra treinar, mas a gente evolui. A gente ouve certos comandos e desenvolve certas birras, mas cria consciência de jogo e entende que aquela teammate só quer que a gente seja uma boa skater. Estar em uma equipe é confiar nas outras e deixar que confiem em ti. Além de tudo isso, é ter a liberdade pra ser aquela pessoa legal e esforçada que a gente sempre quis, através de um alter ego, e levar isso aos poucos pra fora da track.

 

Roller Derby é deixar-se ser e se aceitar para evoluir, e aceitar as consequências disso. Hoje, me vejo uma pessoa mais esforçada, com mais foco, mais saudável, menos estressada e, principalmente, menos negativa sobre minhas capacidades.

just let it be

No entanto, a única explosão do final da minha história é a minha na track. Não tem prédio caindo, nem um cara de samba canção. Mas acaba tudo bem, eu garanto.

 

Khaotic Kira, #93

Para aprender estratégia e regras assistindo jogos

Ainda é comum (pelo menos no Brasil) que entremos numa equipe de roller derby sem entender as regras do jogo. Com o tempo vamos absorvendo algumas regras (a menina com a estrela no capacete marca pontos, as bloqueadoras devem impedir a adversária de passar, não é bom pisar fora da pista), mas muitos detalhes passam sem ser esclarecidos. Pra jogar o jogo de forma eficiente é necessário parar algumas – ou várias – vezes para ler as regras, e assistir jogos gravados é uma das melhores maneiras de entendê-las na prática.

Porém, um jogo de nível profissional é rápido e com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e para utilizá-lo no aprendizado é preciso fazer mais do que apenas assisti-lo. Pra assistir um jogo de maneira produtiva, eu listei aqui algumas práticas que utilizo, e que podem servir para mais pessoas.

1) ASSISTIR COM CALMA E TEMPO DISPONÍVEL.
Assista ao jogo parando nos momentos em que tiver dúvidas, e com as regras da WFTDA por perto. Mesmo que assista 15 minutos de jogo em uma hora, enquanto acompanha cada etapa da ação, chama as teammates para discutir e procura detalhes nas regras, o seu interesse maior é aprender, e não descobrir o placar final.

2) OLHAR PARA OS JUÍZES (E SABER O QUE ELES ESTÃO FAZENDO).
Acontecem ações em um momento em que você estava olhando outros detalhes, e de repente você vê uma jogadora indo para o banco. Caso não saiba o que aconteceu, volte o vídeo e preste atenção nos gestos que os juízes estão fazendo. É bem fácil achar na internet imagens e vídeos explicando os gestos dos juízes e o que eles significam. Sabendo o nome da falta, se ainda tiver dúvida, leia as regras e veja se identifica o movimento que a causou.

3) OLHAR (TAMBÉM) PRAS BLOCKERS.
É comum criarmos o hábito de olhar só para a ação das jammers, torcendo pra elas passarem. Mas você também quer atuar como blocker, ou pelo menos entender como blockers agem. Prestando atenção nisso vai conseguir identificar as diferentes formas de bloqueio dos times, e perceber como é a estratégia de um bloqueio eficiente.

4) DAR ATENÇÃO PARA AS REGRAS DE FALTA POSICIONAL.
O objetivo no jogo de roller derby não é fazer contato com as adversárias, mas evitar que estas tomem posição de vantagem. Vale a pena escolher pelo menos alguns momentos no jogo (como inícios de jam, power jams), tentar identificar padrões de posicionamento, seus resultados, as faltas que acontecem por causa dele.

5) SUPOR QUE AS JOGADORAS E JUÍZES ESTÃO SEMPRE FAZENDO A COISA MAIS INTELIGENTE A SER FEITA.
Você está assistindo jogadoras de alto nível competindo, pessoas nas quais você quer se espelhar. Caso veja alguém agindo de forma que você não considera estrategicamente eficiente, antes de considerar que ela está cometendo um erro, volte ao lance e revise os pontos a seguir:

• FALTA: Será que ela está agindo dessa maneira porque, se não o fizer, levará falta? Será que ela agiu de maneira não intencional, e efetivamente levou falta depois? Não confie que você conhece todos os detalhes das regras, pois detalhes pequenos fazem a diferença.
• IMPEDIMENTO: Será que ela não pretendia fazer outra coisa, mas foi impedida de completar seu intento por uma jogadora adversária?
• ESTRATÉGIA: Tem certeza que não é estrategicamente interessante agir da maneira que ela está agindo? Novamente, não confie que você sempre sabe a melhor estratégia a ser feita. É possível que o que você tem aprendido nos treinos sejam orientações para jogadoras iniciantes, mas jogadoras com mais técnica podem se permitir agir de maneira diferente.
• PONTO DE VISTA: Você está assistindo o jogo fora da ação, e vendo tudo de um ângulo privilegiado. Será que a jogadora agiu daquela maneira porque, da posição que estava e com as informações que possuía aquilo era a coisa mais eficiente a ser feita?
• EXAUSTÃO: Especialmente ao final do jogo, o desempenho de qualquer atleta cai. Talvez os movimentos e estratégias pareçam menos efetivos porque a jogadora está exausta.
Caso não se aplique nenhuma dessas situações, comece a considerar que a jogadora pode não ter tomado a melhor decisão naquele momento.

6) POR ÚLTIMO, FAZER PERGUNTAS, MESMO AS QUE PARECEM ÓBVIAS.
Nesses casos, geralmente acabamos descobrindo os detalhes das regras que fazem a diferença entre levar uma falta ou não, por entender o procedimento correto em cada caso.

Esse processo pode parecer cansativo, mas com o tempo não é preciso passar por todas essas etapas e assistir um jogo inteiro produtivamente sem interrupções. É possível assim aprender as regras e criar consciência de jogo fora dos treino, e isso se refletirá na track.

Carol Contravenção #10